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Crítica

Bia Soull

: "Pornografia Auditiva"

Ano: 2026

Selo: Warner

Gênero: Rap, Funk, Eletrônica

Para quem gosta de: LARINHX e Ebony

Ouça: Melaço, Putinho Piru Rodado e Preliminares

8.8
8.8

Bia Soull: “Pornografia Auditiva”

Ano: 2026

Selo: Warner

Gênero: Rap, Funk, Eletrônica

Para quem gosta de: LARINHX e Ebony

Ouça: Melaço, Putinho Piru Rodado e Preliminares

/ Por: Cleber Facchi 24/04/2026

Ninguém fala sobre sexo como Bia Soull. Poetisa do erotismo, a artista paranaense radicada em São Paulo passou os últimos anos penetrando a cena do funk paulista com uma sequência de composições marcadas pelo desejo, porém pontuadas pelo bom humor. Da poesia explícita de Sem Moralismo, com D.Silvestre, ao toque cômico da viral Pompoarismo, de MU540, sobram momentos de evidente lascívia e fina provocação.

Não por acaso, ao mergulhar em Pornografia Auditiva (2026, Warner), primeiro álbum de estúdio de Soull, o esperado amadorismo, típico de um disco de estreia, dá lugar a um registro que emana maturidade. São composições que escancaram o domínio da cantora na construção dos versos e ainda elevam a qualidade da produção, concedendo ao funk paulista um requinte semelhante ao de nomes como Kelela e FKA Twigs.

De acabamento minimalista, lembrando o funk espacial de DJ Anderson do Paraíso em Queridão (2024), o registro assinado em parceria com diferentes produtores ganha forma aos poucos, sem pressa. A própria escolha da sugestiva Preliminares como música de abertura torna isso bastante explícito. É como se cada componente fosse trabalhado em uma medida particular de tempo, evidenciando o refinamento de Soull.

Dessa forma, cada nova faixa abre passagem para a música seguinte, aumentando a intensidade do disco e o desejo do eu lírico. Entretanto, Pornografia Auditiva não trata apenas de sexo, mas sobre as dinâmicas de poder, a libertação sexual feminina, o empoderamento e as vivências da cantora como uma mulher negra e bissexual. O prazer está presente durante toda a execução da obra, mas isso é apenas a primeira camada.

Em faixas como Menage e Malandro TouchScreen, por exemplo, Soull tensiona os limites do sexo e discute masculinidade frágil enquanto estreita laços com artistas como Wes. Já em Desgraçadinha, com rimas de Yuri Redicopa, é o desgaste emocional e o desejo de ruptura que atravessa os versos marcados pelo prazer. Nada que prejudique a entrega de faixas puramente hedonistas, como Melaço, reencontro com D.Silvestre.

São justamente esses diálogos com diferentes parceiros, como NandaTsunami, em Putinho Piru Rodado, e Matheus Coringa, em Boombap Puto, que salvam o trabalho de pequenas repetições estruturais. Marcado pelo uso sempre calculado das batidas e bases, Pornografia Auditiva trata desse reducionismo como sua maior virtude e fraqueza, revelando um catálogo de canções marcadas pelo acabamento bastante similar.

Ainda assim, passar pelo repertório de Pornografia Auditiva e não ceder aos encantos de Soull é uma tarefa quase impossível. Seja nos momentos mais explícitos, como em Viciada e Óleo de Coco, ou nos instantes em que se expõe emocionalmente, caso da derradeira Coração Puro, sobram faixas que revelam a capacidade da artista em seduzir com muito pouco, fazendo do sexo sua principal ferramenta de trabalho e de prazer.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.