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Crítica

Iglooghost

: "Tidal Memory Exo"

Ano: 2024

Selo: LuckyMe

Gênero: Eletrônica

Para quem gosta de: Aphex Twin e Hudson Mohawke

Ouça: Coral Mimic, New Species e Pulse Angel

8.0
8.0

Iglooghost: “Tidal Memory Exo”

Ano: 2024

Selo: LuckyMe

Gênero: Eletrônica

Para quem gosta de: Aphex Twin e Hudson Mohawke

Ouça: Coral Mimic, New Species e Pulse Angel

/ Por: Cleber Facchi 04/06/2024

A crueza explícita na imagem de capa de Tidal Memory Exo (2024, LuckyMe) ajuda a entender o tipo de som que Seamus Rawles Malliagh busca desenvolver no mais novo trabalho de estúdio sob a alcunha de Iglooghost. Sequência ao material entregue em Lei Line Eon (2021), o disco se passa em um futuro pós-apocalíptico, como o produto instável de uma transmissão pirata gerada em uma ocupação inundada e enferrujada em uma estranha cidade litorânea do Reino Unido. O mais puro caos convertido em música.

Contraponto à limpidez plástica que marca o primeiro trabalho de estúdio do artista irlandês, Neō Wax Bloom (2017), Tidal Memory Exo destaca tanto a precisão como a truculência do som incorporado por Malliagh. São composições que se desenvolvem em um intervalo de poucos minutos, porém, dotadas de uma complexidade única, efeito direto da escolha do artista em trabalhar na desconstrução das batidas, uso fragmentado dos vocais e permanente atravessamento de informações que tensionam o repertório.

Posicionada logo nos minutos iniciais do trabalho, New Species funciona como uma ótima representação desse resultado. Do momento em que tem início, cada mínimo componente da canção parece pensado para testar os limites do próprio ouvinte. São distorções ruidosas e batidas industriais que atravessam uma base totalmente amorfa, dando a sensação de uma obra viva, ainda que profundamente desfigurada e suja, como uma criação orgânica que sobrevive a partir de implantes metálicos, circuitos e outros aparatos robóticos.

É como se cada canção levasse o disco para outras direções, tornando a experiência de ouvir o trabalho sempre imprevisível. Não se trata de algo revolucionário, vide a forte similaridade com as composições de veteranos como Aphex Twin, Squarepusher e outros nomes de destaque da década de 1990, porém, tudo é explorado com tamanha consistência e identidade criativa que é simplesmente impossível não se deixar conduzir pela narrativa sonora e poética que Malliagh busca desenvolver até os minutos finais do material.

Dentro desse cenário dominado por formações instáveis e estranhas estruturas rítmicas, Malliagh revela desde músicas que parecem pensadas para as pistas, como a frenética Coral Mimic, até composições que surgem como necessários momentos de respiro criativo, marca da contemplativa Spawn01, criação que se completa pelas vezes enevoadas de Cyst. São diferentes ideias, quebras e constantes mudanças de direção, tratamento reforçado na entrega de canções como as imprevisíveis e urgentes Pulse Angel e Germ Chrism.

Passagem para um universo particular de Iglooghost, Tidal Memory Exo busca tensionar a experiência do ouvinte na mesma medida em se revela como uma das criações mais fascinantes da eletrônica recente. É como se em um futuro próximo e cada vez menos fictício, Malliagh fosse alimentado pelo desejo de recriar algumas de suas principais obras e inspirações, porém, partindo de uma memória há muito corrompida pela inevitável passagem do tempo e limitado por ferramentas que parecem próximas de se desintegrar.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.