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Crítica

Kali Uchis

: "Orquídeas"

Ano: 2024

Selo: Geffen

Gênero: R&B, Pop, Reggaeton

Para quem gosta de: SZA e Ravyn Lenae

Ouça: Igual Que Un Ángel e Te Mata

8.3
8.3

Kali Uchis: “Orquídeas”

Ano: 2024

Selo: Geffen

Gênero: R&B, Pop, Reggaeton

Para quem gosta de: SZA e Ravyn Lenae

Ouça: Igual Que Un Ángel e Te Mata

/ Por: Cleber Facchi 15/01/2024

Dizer que Kali Uchis vive hoje sua melhor fase seria um erro. Afinal, desde que revelou o primeiro álbum de estúdio da carreira, Isolation (2018), a cantora e compositora norte-americana em nenhum momento deixou de surpreender. Depois de alcançar uma parcela ainda maior do público durante a apresentação de Sin Miedo (del Amor y Otros Demonios) (2020), a artista descendente de colombianos passou a investir em uma abordagem ainda mais sofisticada, vide o neo-soul psicodélico de Red Moon In Venus (2023), obra que se competa agora, dez meses depois, com a chegada do fino repertório de Orquídeas (2024, Geffen).

Embora concebido simultaneamente com o registro que o antecede, o que explica o mesmo refinamento estético e rica base instrumental, Orquídeas soa como uma continuação direta do material entregue pela cantora durante o lançamento de Sin Miedo (del Amor y Otros Demonios). Parte desse resultado vem da escolha de Uchis em reservar ao disco um catálogo de canções interpretadas quase que integralmente em espanhol. Mais do que isso, o trabalho marcado pela vulnerabilidade dos temas, dramas e sentimentos avassaladores funciona como um componente de diálogo com diferentes representantes da música latina.

Nome em ascensão na cena mexicana, Peso Pluma é o primeiro a surgir no trabalho, dividindo os versos com Uchis no pop funkeado de Igual Que Un Ángel, composição que destaca o lado dançante da artista e mais uma vez amplia os limites da obra. Mais à frente, é o domenicano El Alfa que chama a atenção em Muñekita, faixa que se completa pela rapper JT, da dupla City Girls. Nada que se compare ao impacto de Karol G, na posterior Labios Mordidos, um reggaeton deliciosíssimo, quente, que ainda abre passagem para a nova versão de No Hay Ley, velha conhecida da cantora que agora se completa com Rauw Alejandro.

Mesmo rodeada de novos colaboradores, o que funciona como um subterfúgio para disfarçar a escolha de temas e direções criativas que pouco acrescentam quando próximas dos lançamentos anteriores, a grande força de Orquídeas se concentra unicamente em Uchis. Com uma voz sempre bem posicionada, alternando entre o canto etéreo, a forte teatralidade e a rima, a artista norte-americana mais uma vez utiliza do registro como um espaço para tratar dos próprios tormentos sentimentais e transitar por diferentes estilos em uma abordagem que potencializa tudo aquilo que foi apresentado em Sin Miedo (del Amor y Otros Demonios).

Exemplo disso pode ser percebido em Te Matas, composição em que emula a dramaticidade típica de um bolero produzido na década de 1960, porém, partindo de um senso de atualização poético que trata de relacionamentos tóxicos e outras reflexões sentimentais recentes. A própria Dame Beso / Muévete, música de encerramento do trabalho, é outra que chama a atenção pelo olhar atento de Uchis para a cultura latina, efeito direto da colorida mistura de estilos que vai do merengue aos ritmos afro-cubanos. Instantes em que a artista confessa diferentes influências sem necessariamente perder o domínio criativo da própria obra.

Parte desse resultado vem da escolha da cantora e seus parceiros de produção em garantir ao público um registro equilibrado. São canções que transitam por diferentes décadas, estilos e referências extraídas dos mais diversos campos da música latina, mas que a todo momento convergem para a formação de faixas dotadas de um brilho pop que parece pertencer somente à Uchis. É como um acumulo natural de tudo aquilo que a artista tem incorporado dentro de estúdio desde a entrega de Isolation, porém, estabelecendo pequenas quebras e curvas ocasionais que a invariavelmente conduzem o ouvinte para novas direções.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.