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Crítica

Kiko Dinucci

: "Medusa"

Ano: 2026

Selo: Risco

Gênero: Rock

Para quem gosta de: Juçara Marçal e Negro Leo

Ouça: Água Viva, Cascuda e Como Foi

8.3
8.3

Kiko Dinucci: “Medusa”

Ano: 2026

Selo: Risco

Gênero: Rock

Para quem gosta de: Juçara Marçal e Negro Leo

Ouça: Água Viva, Cascuda e Como Foi

/ Por: Cleber Facchi 18/09/2026

Poucas vezes antes Kiko Dinucci pareceu tão exposto emocionalmente quanto em Medusa (2026, Risco). Primeiro álbum de estúdio do músico paulistano desde Rastilho (2020), o disco deixa de lado o meticuloso acabamento acústico e a atmosfera árida do trabalho anterior para atravessar a cidade em meio a ruídos e histórias de desamor que soam como um encontro improvável entre Roberto Carlos e My Bloody Valentine.

Eu preciso destruir pra nascer”, reflete o guitarrista na derradeira Fantasmagoria. Originalmente composta para o espetáculo de mesmo nome de Felipe Hirsch, a canção sintetiza a atmosfera de degradação sonora e emocional que consome o trabalho. São versos sempre expositivos, crus e viscerais que se completam pela sobreposição de ruídos e texturas que vêm sendo testadas pelo artista desde os ensaios no EP VHS (2021).

Uma vez imerso nesse cenário de sentimentos expostos, gozo e momentos de maior vulnerabilidade, cada nova composição leva o disco para uma direção diferente. Em Água Viva, por exemplo, enquanto os versos mergulham em uma relação obsessiva, camadas de guitarras parecem sufocar o ouvinte. Já em Como Foi, com ares de canção perdida dos anos 1970, o lento avanço da base enevoada complementa a letra amarga.

Embora consumido pela dor, Medusa garante alguns respiros bem-humorados. Em Loira Palmer, com vozes de Crystal, do Vera Fischer Era Clubber, é a personagem lynchiana que se adapta ao contexto urbano do disco. Nada que prepare o ouvinte para Claudia, Frota e Eu, delirante parceria com Negro Leo que propõe uma releitura quase antropofágica da música Madonna, Sean and Me, icônica composição do Sonic Youth.

Dividido entre momentos de dor e libertação, o músico garante ao público um álbum equilibrado, mas não irretocável. Assim como em Rastilho, a voz deficitária do guitarrista continua sendo o principal elemento de desconforto da obra, sensação reforçada no contrastante canto harmonioso de Maria Beraldo, em Cascuda. Entretanto, a beleza do trabalho de Dinucci nunca esteve na potência dos vocais, mas em outros atributos.

Da capacidade harmônica em mesclar referências tão disformes, como Lupicínio Rodrigues e Hüsker Dü, ao domínio orquestral de colaboradores vindos dos mais variados campos da música, entre eles Sophia Chablau, Cadu Tenório, Lello Bezerra e Juçara Marçal, Dinucci se articula como um catalisador criativo. O próprio título da obra, que em uma leitura inicial evoca o mito grego ou a criatura marinha, também serve para descrever o equipamento que conecta a mesa de som ao palco. É como se o guitarrista assumisse uma função quase técnica, não fosse o fino tecido lírico e emocional que cobre o registro de uma ponta à outra.

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Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.