Image
Crítica

Peggy Gou

: "I Hear You"

Ano: 2024

Selo: XL

Gênero: Eletrônica, Pop

Para quem gosta de: Yaeji e Jayda G

Ouça: (It Goes Like) Nanana e I Believe In Love Again

5.5
5.5

Peggy Gou: “I Hear You”

Ano: 2024

Selo: XL

Gênero: Eletrônica, Pop

Para quem gosta de: Yaeji e Jayda G

Ouça: (It Goes Like) Nanana e I Believe In Love Again

/ Por: Cleber Facchi 24/06/2024

Quando lembramos de tudo aquilo que Peggy Gou conquistou no decorrer da última década e o impacto deixado na cena eletrônica, como ser a primeira artista coreana a tocar no Berghain, em Berlim, e figurar em uma posição de destaque na lista dos 100 melhores DJs da DJ Magazine, difícil não pensar em I Hear You (2024, XL) como uma das estreias mais decepcionantes do ano. Contrário ao indicado no título e até mesmo na imagem de capa do material, a produtora de Incheon parece não ter ouvido a própria criação.

A começar pelo óbvio, o aguardado registro de dez canções parece muito mais uma coletânea do que um disco propriamente dito. Parte expressiva desse resultado vem do esforço da produtora em resgatar uma série de músicas há muito reveladas ao público. É o caso de I Go, faixa lançada como single em julho de 2021, mas que volta agora, se disfarçando em meio a criações inéditas. Outra que retorna é (It Goes Like) Nanana, composição de enorme sucesso no TikTok e que reaparece em uma desnecessária versão editada.

Entretanto, para além de todas essas velharias que prevalecem como algumas das melhores canções já produzidas pela sul-coreana, I Hear You espanta pela completa incapacidade da produtora em criar uma obra coesa. Livre de qualquer filtro estético, a artista atira para todas as direções, porém, erra em parte expressiva delas. É como se cada composição servisse de passagem para um novo e totalmente confuso território criativo, evidenciando uma multiplicidade de estilos que parecem não dialogar de jeito nenhum.

São ideias jogadas de forma aleatória, como em All That, parceria com a rapper porto-riquenha Villano Antillano, em que estreita laços com a música latina da maneira mais genérica possível, talvez pensando em abraçar uma nova fatia do mercado dentro das plataformas de streaming. Mesmo quando olha para a própria cultura, como na regional Seoulsi Peggygou (서울시페기구), tudo soa deslocado dentro de I Hear You. Nada se conecta com nada, como estranhos fluxos de pensamento encaixados pela artista de última hora.

Outro aspecto bastante problemático de I Hear You diz respeito a completa falta de identidade da artista ao longo do material. Da escolha dos timbres ao tratamento dado aos sintetizadores, batidas e vozes, tudo soa como uma tentativa da produtora em replicar a atmosfera da cena eletrônica entre final dos anos 1980 e início da década de 1990. São canções como Lobster Telephone e a derradeira 1+1=11 que mais parecem releituras de peças fundamentais da eurodance, como um olhar excessivamente nostálgico para o passado.

Tamanha confusão no processo de montagem do disco faz com que mesmo boas canções, como I Believe In Love Again, colaboração com Lanny Kravitz, acabe se perdendo dentro do trabalho. O mais triste talvez seja perceber a forma como a produtora tenta trazer um envelopamento artístico para o trabalho, conceito reforçado no discurso da introdutória Your Art (“Conscientes disso, vamos fazer arte de novo“), mas que logo desemboca na eletrônica mais ordinária possível em Back To One. Uma gritante sucessão de erros talvez aceitável para um artista iniciante, mas não para alguém com tamanho repertório quanto Peggy Gou.

Ouça também:

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.