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Crítica

Yaya Bey

: "Ten Fold"

Ano: 2024

Selo: Big Dada

Gênero: R&B

Para quem gosta de: Liv.e, KeyiaA e L'Rain

Ouça: Chasing The Bus e Sir Princess Bad Bitch

8.0
8.0

Yaya Bey: “Ten Fold”

Ano: 2024

Selo: Big Dada

Gênero: R&B

Para quem gosta de: Liv.e, KeyiaA e L'Rain

Ouça: Chasing The Bus e Sir Princess Bad Bitch

/ Por: Cleber Facchi 27/05/2024

Mesmo jogando dentro das regras do R&B tradicional, Yaya Bey é uma artista que surpreende a cada novo trabalho de estúdio. Mais recente empreitada criativa da cantora e compositora norte-americana, Ten Fold (2024, Big Dada) funciona como uma boa representação desse resultado. Sequência ao material entregue em Remember Your North Star (2022), o registro chama a atenção pela pluralidade de elementos, porém, preservando a forte aproximação entre as faixas e temas sutilmente incorporados até os momentos finais.

Passagem para um universo particular da artista, sempre ancorada em memórias de um passado recente, conflitos sentimentais e canções que destacam a vulnerabilidade dos versos, Ten Fold se revela como uma obra de natureza complexa, ainda que dotada de um dinamismo único. São composições que se resolvem em um intervalo de até dois minutos, destacando o poder de síntese de Bey, direcionamento que tem sido incorporado desde o primeiro trabalho de estúdio, o bom The Many Alter-Egos of Trill’eta Brown (2016).

A diferença em relação aos antigos trabalhos da cantora, sempre marcados pela colorida combinação de estilos, está na forma como Bey se permite arriscar ainda mais dentro de estúdio. Exemplo disso fica mais do que evidente na sequência composta por Chrysanthemums, Sir Princess Bad Bitch e East Coast Mami. São pouco mais de sete minutos em que a arista vai do jazz fusion da década de 1970 à música house e neo-soul produzido nos anos 1990 sem necessariamente fazer disso o estímulo para um material confuso.

Claro que esse esforço em transitar por diferentes gêneros em nada prejudica a entrega de composições dotadas de uma abordagem convencional. É o caso de Chasing The Bus, um R&B sofisticado que destaca o forte aspecto sentimental do registro. “Eu te amo, querido / Mas parece que estamos presos em uma seca“, canta em meio a arranjos de pianos, batidas e samples cuidadosamente encaixados. A própria canção de abertura, Crying Through My Teeth, é outra que encanta o ouvinte pela completa riqueza dos elementos.

É como se cada canção, mesmo as mais curtas, fossem trabalhadas em uma medida própria de tempo. Em Eric Adams In The Club, por exemplo, Bey parte de uma base de sintetizadores que evoca a trilha de Arquivo X, destaca a fragmentação das batidas e brinca com as vozes com uma fluidez única. Em The Evidence, nos minutos iniciais, são marcações de pianos e batidas econômicas que se completam pela densidade dos vocais. Um vasto catálogo de ideias, diferentes ritmos e possibilidades à serviço da cantora.

Naturalmente, toda essa pluralidade de estilos e volumoso conjunto de composições tende aos pequenos excessos. A própria Me And All My Niggas, confessa homenagem ao pai da cantora, o rapper Grand Daddy I.U. (1968 – 2022), orbita um universo tão particular que é difícil se conectar com o restante do trabalho. Entretanto, por se tratar de músicas tão curtas, esses pequenos defeitos são logo disfarçados pela rápida inserção de novas canções que potencializam a riqueza de ideias explícita no repertório de Ten Fold.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.