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Ano: 2026

Selo: Sacred Bones Records

Gênero: Eletrônica, Industrial

Para quem gosta de: Gilla Band e Model/Actriz

Ouça: Magazine, Cursive e I'll Ask Her

8.3
8.3

Mandy, Indiana: “Urgh”

Ano: 2026

Selo: Sacred Bones Records

Gênero: Eletrônica, Industrial

Para quem gosta de: Gilla Band e Model/Actriz

Ouça: Magazine, Cursive e I'll Ask Her

/ Por: Cleber Facchi 13/02/2026

A expressão gutural que dá nome ao segundo álbum de estúdio do grupo anglo-francês Mandy, Indiana e a sobreposição crua que ilustra a imagem de capa do disco alertam: esse é um trabalho desconfortável, físico e visceral. Nascido de um doloroso processo vivido entre os membros da banda ao longo dos últimos anos, com passagens por salas de cirurgia e diferentes emergências médicas, o trabalho estabelece nessa tensão permanente o estímulo para a formação de um repertório que avança sobre o ouvinte de maneira invasiva.

A própria escolha do grupo em inaugurar o disco com Sevastopol torna isso bastante evidente. Do uso sujo dos sintetizadores à distorção das vozes e batidas, tudo se projeta de forma opressiva. É como uma versão ainda mais sufocante de tudo que o grupo havia testado em I’ve Seen a Way (2023), conceito reforçado em Magazine, faixa que trata sobre uma experiência de estupro vivenciada pela vocalista Valentine Caulfield.

De fato, parte expressiva do trabalho gira em torno de situações de violência, abuso e repetições históricas, como na derradeira I’ll Ask Her, faixa que expõe a cumplicidade masculina em casos de assédio. Em Urgh, há espaço para tudo, menos para a complacência. E isso se reflete não apenas na maneira como Caulfield despeja os versos de cada composição, mas na arquitetura torta que orienta a base instrumental do disco.

Amparado pela produção adicional de Daniel Fox, do Gilla Band, Scott Fair e seus companheiros de grupo, Simon Catling e Alex Macdougall, brincam com a constante fragmentação dos elementos. São camadas de guitarras, texturas e batidas destacadas que, vez ou outra, resgatam uma série de componentes testados pela banda durante as gravações de I’ve Seen a Way, mas que surpreendem pela completa brutalidade.

Mesmo quando o grupo desacelera, prevalece em Urgh o caráter exploratório. Em A Brighter Tomorrow, por exemplo, ambientações ruidosas se completam pela voz quase instrumental de Caulfield. Já em Sicko!, com rimas adicionais de Billy Woods, sintetizadores texturizados evocam a boa fase do Death Grips. São momentos de maior suavidade que antecedem a execução de composições como a ascendente Cursive.

Tudo soa direto, áspero e deliberadamente incômodo, como se o quarteto estivesse interessado em expor o nervo, não em protegê-lo. Ao escancarar o que há de mais animalesco nas relações de poder, no instinto de dominação e na cumplicidade silenciosa que sustenta a violência, o grupo faz do desconforto um método e uma linguagem. É um disco que não pede empatia, exige confronto e acerta em se recusar a oferecer alívio.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.