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Crítica

Gorillaz

: "The Mountain"

Ano: 2026

Selo: Kong

Gênero: Pop Rock

Para quem gosta de: Beck e The Avalanches

Ouça: The Manifesto, Orange Country e Damascus

8.2
8.2

Gorillaz: “The Mountain”

Ano: 2026

Selo: Kong

Gênero: Pop Rock

Para quem gosta de: Beck e The Avalanches

Ouça: The Manifesto, Orange Country e Damascus

/ Por: Cleber Facchi 06/03/2026

Enquanto se preparavam para dar vida ao nono trabalho de estúdio do Gorillaz, Damon Albarn e o artista visual Jamie Hewlett foram surpreendidos com o falecimento de seus pais. O processo levou os dois a viajar até a Índia, onde espalharam cinzas pelo rio Ganges e mergulharam em um processo de reflexão sobre a morte, temática que embala a experiência da dupla e do próprio ouvinte em The Mountain (2026, Kong).

Com a montanha como uma metáfora para a jornada ao longo da vida, Albarn se aprofunda em uma série de composições que tratam sobre morte, luto e renascimento com uma sensibilidade poucas vezes antes percebida nas canções do Gorillaz. “Sabe o que é mais difícil? / É dizer adeus a alguém que você ama”, canta o artista em The Hardest Thing, faixa que sintetiza parte dessa vulnerabilidade que orienta a obra.

Completa pela participação de Tony Allen, que faleceu em 2020, a canção ainda indica um movimento curioso em The Mountain: a série de parcerias póstumas. São nomes como David Jolicoeur (De La Soul), Bobby Womack, Mark E. Smith (The Fall) e o ator Dennis Hopper, que já haviam colaborado com o Gorillaz anteriormente, mas que retornam agora para serem celebrados, reforçando a relação da obra com a morte.

O resultado desse processo está na entrega de um álbum tão doloroso quanto reconfortante, estímulo para a entrega de canções como The Manifesto. Com mais de sete minutos de duração, a composição assinada em parceria com os rapper Trueno e Proof, que morreu em 2006, funciona como uma delicada reflexão sobre a jornada além da vida e aquilo que permanece, conceito percebido em outros momentos do disco.

São faixas que, mesmo amargas, mantêm firme o bom humor e a habitual leveza do Gorillaz, proposta que se reflete em músicas como Orange County, com Kara Jackson e Anoushka Shankar, e Damascus, encontro com o rapper norte-americano Yasiin Bey e o músico sírio Omar Souleyman. Um intenso atravessamento de informações, ritmos e vozes, proposta que tende aos excessos, mas em nenhum momento perde o controle.

Parte dessa percepção vem do acabamento homogêneo do trabalho, com Albarn utilizando instrumentos clássicos da música indiana, como a cítara e a flauta bansuri, para amarrar as canções. São orquestrações sutis, proposta que evoca o refinamento técnico explícito em Plastic Beach (2010), porém partindo de uma abordagem ainda mais sensível, humana e intimista. Dessa forma, mesmo que nasça do luto, The Mountain logo transforma a despedida em travessia, fazendo da perda o ponto mais alto dessa escalada emocional.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.