Ano: 2026
Selo: Babel
Gênero: Experimental
Para quem gosta de: Cidadão Instigado e Thiago Nassif
Ouça: Revolução da Esperança, Terço Branco e Pato Santo
Ano: 2026
Selo: Babel
Gênero: Experimental
Para quem gosta de: Cidadão Instigado e Thiago Nassif
Ouça: Revolução da Esperança, Terço Branco e Pato Santo
Matéria e Memória (2026, Babel) é um trabalho esquisitíssimo e, por isso mesmo, fascinante. Utilizando a fragmentação da guitarra e o curioso diálogo com a produção eletrônica, o cantor, compositor, produtor e guitarrista pernambucano Lello Bezerra se aventura na elaboração de um curioso repertório que combina modernidade e ancestralidade enquanto tensiona a experiência do ouvinte de maneira nada convencional.
Sequência ao material apresentado em Desde Até Então (2019), o álbum gestado ao longo dos últimos anos destaca o caráter exploratório do artista. Longe do futurismo eletrônico e dos temas jazzísticos que marcam o repertório do disco anterior, o guitarrista investe em um registro cada vez mais regionalista. Canções que vão do brega ao cavalo-marinho sem necessariamente limitar as ambientações sintéticas do instrumentista.
Entretanto, a principal mudança em relação ao disco que o antecede não está na reconfiguração estrutural e sonora de Matéria e Memória, mas no uso destacado da voz. Consciente das próprias limitações, Bezerra se revela aos poucos, fazendo do canto anasalado que lembra Fernando Catatau o estímulo para a entrega de um material cada vez mais político, provocativo e que reforça os temas periféricos que movem o álbum.
São composições que, mesmo enigmáticas, utilizam objetos poéticos bastante evidentes, como na curiosa reflexão sobre gênero em Revolução da Esperança, ou mesmo nas questões raciais e de classe que ecoam nos versos de Terço Branco. Ainda assim, não espere por um disco imediato. É preciso tempo e certa dose de esforço para se ambientar ao universo lírico de Bezerra, sempre estruturado de maneira fragmentada.
Embora conceda maior destaque à palavra, Bezerra mantém firme a inserção de temas instrumentais que resgatam a essência do trabalho anterior. A diferença está na forma como o músico rompe com a fluidez rítmica e homogeneidade explícita em Desde Até Então para investir em criações independentes. Canções como a etérea Pato Santo e a introdutória Gestalt que destacam o esforço do artista em ampliar horizontes.
Claro que essa abordagem fracionada tem seus riscos, como nos momentos finais do trabalho, quando a irregularidade excessiva e o uso de ideias aleatórias dificultam o apego ao material entregue pelo músico. Entretanto, como indicado logo nos minutos iniciais, os caminhos percorridos em Matéria e Memória nem sempre são os mais acessíveis, proposta que, para o bem e para o mal, embala a experiência do ouvinte.
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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.