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Crítica

Sorosoro

: "Eu e Você ou Tudo o que Eu Não Quero que Você Saiba"

Ano: 2026

Selo: Independente

Gênero: Rock

Para quem gosta de: Lupe de Lupe e Guandu

Ouça: Ah! Eu Odeio Trabalhar e Sutileza

7.6
7.6

Sorosoro: “Eu e Você ou Tudo o que Eu Não Quero que Você Saiba”

Ano: 2026

Selo: Independente

Gênero: Rock

Para quem gosta de: Lupe de Lupe e Guandu

Ouça: Ah! Eu Odeio Trabalhar e Sutileza

/ Por: Cleber Facchi 02/04/2026

Eu e você ou tudo o que eu não quero que você saiba (2026) é exatamente o que você poderia esperar de um disco de estreia. Primeiro álbum de estúdio da banda catarinense Sorosoro, o registro chama a atenção pela capacidade do grupo em transitar por diferentes estilos sem necessariamente perder o controle. São composições que vão de um canto a outro enquanto confessam sentimentos, dores e conflitos existenciais.

Exemplo disso fica bastante evidente durante toda a primeira metade do trabalho. Enquanto músicas como Nichetok/corecore e Uma rapidinha antes que Gameciel, o kaiju tartaruga marinha, tribute a velha central destacam a densidade do registro, dialogando com o pós-rock, outras, como Anna Liz (O Mundo é da Sua Cor), revelam o lado mais acessível da banda. Dos versos que se aprofundam em temas cotidianos à fluidez das guitarras que evocam o Wilco em Impossible Germany, tudo parece pensado para hipnotizar o ouvinte.

Sobrevive justamente nesse diálogo da banda com o pop a passagem para algumas das melhores faixas do registro. É o caso da já conhecida Ah! Eu Odeio Trabalhar. Enquanto os versos da canção tratam sobre uma dor compartilhada, guitarras ascendentes e vozes em coro impulsionam a composição que parece pensada para as apresentações ao vivo da Sorosoro. Um catártico exercício de libertação emocional, sonora e lírica.

Partindo dessa abordagem exploratória, algumas das canções que integram o disco levam o ouvinte para direções bastante inesperadas. É o caso de Sutileza, composição que faz lembrar Weird Fishes / Arpeggi, do Radiohead, porém trilha um caminho particular ao incorporar o triângulo em um flerte inusitado com o forró. Já em Ficarei Olhando Até Que Me Entendas é o apoio das vozes femininas que engrandece a faixa.

Nada que diminua a presença de composições densas, lentas e barulhentas, como um regresso natural aos primeiros registros da banda. É o caso de Eu e Você Como Alegoria Para a Guerra Fria, música que avança aos poucos, sem pressa, destacando a relação do grupo com o slowcore. A própria (Heavy Storm Duster), mesmo instrumental, é outra que reforça a capacidade da Sorosoro em tensionar a experiência do ouvinte.

Ainda que sustente boa parte do percurso com segurança, o disco se alonga além do necessário e dilui parte do impacto construído pela banda. A escolha de não encerrar em Jogo da Galinha, uma das faixas mais intensas do repertório, abre espaço para a deslocada Anna Liz (Eu Vou Aonde Você For), que soa como um epílogo pouco resolvido. Soma-se a isso o uso deficitário das vozes, especialmente em Eu já não aguento mais, limitando o potencial de composições que pedem maior densidade interpretativa. Pequenos tropeços que bagunçam os rumos da obra, mas em nenhum momento abalam as estruturas do trabalho.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.