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Crítica

Juliana Linhares

: "Até Cansar o Cansaço"

Ano: 2026

Selo: Independente

Gênero: MPB, Baião, Rock

Para quem gosta de: Josyara e Cátia de França

Ouça: Depois do Breu, Emaranhada e Tempos Temporais

8.5
8.5

Juliana Linhares: “Até Cansar o Cansaço”

Ano: 2026

Selo: Independente

Gênero: MPB, Baião, Rock

Para quem gosta de: Josyara e Cátia de França

Ouça: Depois do Breu, Emaranhada e Tempos Temporais

/ Por: Cleber Facchi 22/05/2026

Se em Nordeste ficção (2021) a música de Juliana Linhares era geográfica, em Até cansar o cansaço (2026) ela reflete o corpo. Nascido de um processo de esgotamento e transformação pessoal vivido pela cantora e compositora potiguar, o trabalho parte desse desgaste físico, emocional e mental para pensar em soluções possíveis para um futuro próximo em que sonhar coletivamente seja permitido para além da hiperconexão.

Vamos dançar / Até cansar o cansaço / Até que vire do avesso / Até um novo começo”, canta Linhares logo nos minutos iniciais, na música-título do trabalho. Espécie de canção-manifesto, a faixa não apenas aponta a direção temática seguida pela artista ao longo do material, como escancara a potência das vozes e a fina tapeçaria instrumental tecida por um time de músicos regidos pela produção caprichada de Elisio Freitas.

São composições que atualizam o cancioneiro nordestino, evocam figuras históricas como Elba Ramalho e Marinês, mas em nenhum momento ocultam a identidade criativa de Linhares. Exemplo disso fica bastante evidente em Vida Virada, faixa em que celebra a passagem do tempo e a vontade de viver enquanto divide os versos com Anastácia, cantora e compositora pernambucana que carrega o título de “Rainha do Forró”.

Nessas andanças e encontros com diferentes colaboradores, Linhares esbarra em faixas talvez deslocadas, como o reggae em Tanto Buliço, parceria com Agnes Nunes, porém sempre impactantes e marcadas pelo precioso acabamento instrumental. É o caso da ascendente Mistério do Óbvio. Completa pela teatralidade de Ney Matogrosso, a música de temática futurística, quase delirante, leva o trabalho para outras direções.

Entretanto, é quando utiliza uma abordagem reducionista que a cantora garante ao público algumas das melhores faixas do disco. É o caso de Depois do Breu, composição em que a voz escorre em meio a versos consumidos pelo desejo, entrega e conexão íntima. Já em Tempos Temporais, é a fragilidade da insistência que cresce em meio a arranjos diminutos e o acordão de Bebê Kramer. Nada que prepare o ouvinte para a densidade de Emaranhada, duelo com a guitarra de Freitas em que a artista trata das complexidades das relações humanas e da própria existência a partir de uma poesia imagética, como um emaranhado de fios.

Partindo desse contrastante jogo de sensações, Linhares garante ao público uma obra que rejeita o colapso e encontra no miolo do ser as ferramentas para pensar em futuros possíveis. A própria escolha da cantora em regravar A Palo Seco, de Belchior, surge como um reforço a isso. “E eu quero é que esse canto torto feito faca / Corte a carne de vocês”, repete a artista em um exercício tão particular quanto íntimo do ouvinte.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.