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Ano: 2026

Selo: Warp

Gênero: Eletrônica, Música Ambiente

Para quem gosta de: Aphex Twin e Autechre

Ouça: Prophecy At 1420 MHz e The Word Becomes Flesh

8.8
8.8

Boards of Canada: “Inferno”

Ano: 2026

Selo: Warp

Gênero: Eletrônica, Música Ambiente

Para quem gosta de: Aphex Twin e Autechre

Ouça: Prophecy At 1420 MHz e The Word Becomes Flesh

/ Por: Cleber Facchi 10/06/2026

Se em Tomorrow’s Harvest (2013) Mike Sandison e Marcus Eoin ainda vislumbravam um futuro utópico, em Inferno (2026) o confronto com a realidade resulta no trabalho mais sombrio, político e desesperançoso do Boards of Canada. Primeiro álbum de inéditas da dupla escocesa em mais de uma década, o disco deixa de lado o teor etéreo do registro anterior para mergulhar em uma obra consumida pela decadência humana.

Atravessado por elementos religiosos, ocultistas, metafísicos e existenciais, o trabalho de quase 70 minutos de duração é, como tudo aquilo que a dupla escocesa tem explorado desde o início da carreira, uma obra a ser desvendada pelo ouvinte. As peças desse imenso quebra-cabeças sensorial estão espalhadas durante toda a execução do registro, porém, sempre de maneira irregular, reforçando a aura de mistério do disco.

Em músicas como Father and Son, invadida pelo discurso evangélico, e All Reason Departs, com trechos da obra do ocultista inglês Aleister Crowley, as respostas se dão de maneira mais imediata. São composições marcadas pela constante sensação de contraste entre a opressão e a libertação, como se Sandison e Eoin tensionassem o ouvinte a perceber e interpretar o mundo de outras formas, com olhos e ouvidos atentos.

Entretanto, prevalece na ausência de certeza a grande beleza do repertório montado pelos dois produtores. Ainda que Inferno seja o álbum mais acessível da dupla desde Geogaddi (2002), os caminhos percorridos nunca são óbvios. A própria Prophecy At 1420 MHz, logo na abertura do disco, sintetiza essa multiplicidade de elementos que regem o material. São ambientações cósmicas, texturas e batidas que alternam entre a urgência sufocada e a contemplação, tornando impossível prever qualquer movimento de Sandison e Eoin.

A própria dupla se permite testar outros componentes ao longo do registro. Em Naraka, por exemplo, são cantos e elementos da cultura hindu que tratam diretamente sobre a ideia de inferno. Já em The Process, captações de campo e vozes diretas reforçam a sensação de violência, desordem e caos social. Mesmo que muitas dessas canções pareçam esboços ou criações ainda incompletas, estendendo a duração do trabalho para além do necessário, a sensação de impacto causada pelos dois artistas é real e constante, quase física.

Feito para ser absorvido aos poucos, Inferno talvez seja o trabalho que melhor equilibra a complexidade temática e refinamento técnico conquistado pelos dois produtores ao longo da carreira. Em atuação desde a segunda metade da década de 1980, ainda que revelados ao mundo com o cultuado Music Has the Right to Children (1998), Sandison e Eoin seguem tão instigantes e interessados quanto em seus registros iniciais.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.