Image
Crítica

Oblomov

: "Questão de Fogo"

Ano: 2026

Selo: Honey Bomb Records

Gênero: Rock, Rock Psicodélico

Para quem gosta de: Boogarins e O Terno

Ouça: Amei Demais, Questão de Fogo e Dos Trilhos

8.5
8.5

Oblomov: “Questão de Fogo”

Ano: 2026

Selo: Honey Bomb Records

Gênero: Rock, Rock Psicodélico

Para quem gosta de: Boogarins e O Terno

Ouça: Amei Demais, Questão de Fogo e Dos Trilhos

/ Por: Cleber Facchi 31/07/2026

Questão de Fogo (2026) é um desses discos que começam pequenos, como uma fagulha, ganham forma aos poucos e, quando você menos espera, incendeiam tudo ao redor. Estreia da Oblomov, projeto goiano de Jô Queiroz e José Eduardo, o registro parte de estruturas fundamentais da nossa música, como a Tropicália, o Clube da Esquina e a psicodelia nordestina dos anos 1970, contudo trilha um caminho bastante particular.

Tudo é questão de botar fogo”, anuncia Queiroz logo nos minutos iniciais do álbum, na autointitulada faixa de abertura. Inaugurada em meio a falsetes, a composição rompe bruscamente para arremessar o ouvinte em um território marcado pela surpresa, pela quebra de expectativa e pela curiosidade. São canções que cheiram a nostalgia e até acenam para o passado, mas em nenhum momento se deixam consumir por ele.

Parte desse processo de ruptura vem das próprias experiências de Queiroz como uma pessoa não-binária. O diálogo com a obra de veteranos da cena nacional, como Milton Nascimento e Os Mutantes, está presente durante toda a execução do álbum, mas a atualização do discurso é o que concede identidade ao material. “Ser quem sou / Não quem devo ser quem sou”, canta em Dos Trilhos, música síntese dessa transformação.

Enquanto os versos destacam o apuro lírico e a profundidade emocional da obra, arranjos cuidadosamente calculados ampliam os horizontes do registro. Da flauta que invade Decidi Mudar, passando pela psicodelia delirante, vozes e efeitos em Dentro da Maçã, notável é o refinamento técnico e o capricho dos dois artistas que produziram tudo de maneira independente, elevando o que já haviam testado no EP Oblomov II (2021).

Embora parta de um exercício dividido entre Queiroz e Eduardo, Questão de Fogo se abre para a chegada de colaboradores pontuais. Em Cabeça de Pedra, por exemplo, é o dedilhado acústico de Clovis Cosmo que aproxima o disco da música rural, do sertanejo e do rock progressivo. Nada que prepare o ouvinte para a força avassaladora de Amei Demais, composição que cresce na presença de Dinho Almeida, da Boogarins.

Movido pelo caráter exploratório, Questão de Fogo até esbarra em canções menos frutíferas, como o samba psicodélico de Perererou, música que soa como um pastiche de Novos Baianos, mas nunca perde o esmero. A própria imagem de capa do disco, feita à mão por Diany Dias, reflete o aspecto artesanal do álbum, com Queiroz e Eduardo partindo desse abrigo criativo para uma obra que expande infinitamente seus domínios.

Ouça também:

Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.