Ano: 2026
Selo: Longinus
Gênero: Rock, Experimental
Para quem gosta de: Kaatayra e Metá Metá
Ouça: Ayaba Oxum, Oyá Dewo e Futuro Ancestral
Ano: 2026
Selo: Longinus
Gênero: Rock, Experimental
Para quem gosta de: Kaatayra e Metá Metá
Ouça: Ayaba Oxum, Oyá Dewo e Futuro Ancestral
Segundo capítulo da série de discos inspirados na obra do ambientalista, escritor e filósofo brasileiro Ailton Krenak, No Ritmo da Terra (2026, Longinus) revela o domínio criativo de Lua Viana em relação ao próprio trabalho no Antropoceno. Sequência ao material entregue em Natureza Morta (2025), o registro deixa de lado a abordagem incipiente do álbum anterior para melhor organizar suas ideias, temas e bases rítmicas.
Conhecida pela obra com a Sonhos Tomam Conta, a artista carioca radicada em São Paulo mantém firme a relação com o shoegaze/dream pop, porém subverte a estética estrangeira ao inserir elementos de samba, música de capoeira e afoxé de maneira decolonial. A própria temática das faixas, pautadas por questões ambientais e na ideia de futuro ancestral de Krenak, contribui para esse aspecto político do disco, conceito reforçado na capa de Poty Galaco, uma releitura da tela Missionário Sendo Comido Por Uma Onça (1907).
Não se trata de algo exatamente novo, afinal, muitos desses elementos podem ser percebidos no trabalho de Juçara Marçal e Kiko Dinucci, porém a maneira como Viana organiza suas ideias torna tudo fascinante. São canções espiraladas, rítmicas e, consequentemente, hipnóticas. É quase possível visualizar um ritual se formando no meio da selva amazônica enquanto músicas como a extensa Ayaba Oxum são apresentadas.
Parte desse aspecto ritualístico do disco vem não apenas do rico acabamento rítmico das canções, mas da força coletiva do material. Embora atue como o elemento central do registro, Viana abre passagem para que nomes como Gabi d’Oyá, em Oyá Dewo, e Pai Viny, em Ìranti Odé, emprestem suas vozes ao trabalho. Surgem ainda captações de campo e versos cantados em tupi e iorubá que ampliam os limites do álbum.
Claro que, nem sempre, essas costuras estruturais, poéticas e rítmicas parecem funcionar. Em Xe Anama (Coração no Ritmo da Terra), por exemplo, a voz submersa em ruídos acaba sufocando o depoimento de Leontina Viana, avó da artista. Já outras composições, caso da introdutória Avamunha, soam mais como ensaios para músicas posteriores, como Ayaba Oxum e Futuro Ancestral, do que parte expressiva do disco.
Ainda assim, prevalece em No Ritmo da Terra uma consistência poucas vezes antes percebida na obra da artista carioca. Do uso destacado de elementos percussivos, passando pela imponência das guitarras, tudo se projeta de maneira decidida e grandiosa. Mesmo as vozes, antes deficitárias, mantêm o tom raivoso, por vezes áspero, impulsionando as canções. Tal qual o felino que estampa a imagem de capa, Viana avança sobre o ouvinte com um trabalho que é tanto um grito de guerra quanto um ato de libertação particular.
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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.