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Crítica

Charli XCX

: "Wuthering Heights"

Ano: 2026

Selo: Atlantic

Gênero: Pop

Para quem gosta de: Sky Ferreira e Addison Rae

Ouça: Wall of Sound, Chains of Love e House

7.3
7.3

Charli XCX: “Wuthering Heights”

Ano: 2026

Selo: Atlantic

Gênero: Pop

Para quem gosta de: Sky Ferreira e Addison Rae

Ouça: Wall of Sound, Chains of Love e House

/ Por: Cleber Facchi 23/02/2026

Todo mundo quer um pouco de Charli XCX. Com a boa repercussão em torno de Brat (2024), a já cobiçada artista inglesa se transformou em uma das figuras mais desejadas da indústria da música, vestindo marcas de luxo, estampando capas de revistas e até mesmo ocupando um espaço maior no cinema. Exemplo disso fica bastante evidente em The Moment (2024), mocumentário que acompanha justamente essa recente fase e funciona como uma extensão natural de tudo aquilo que define o delirante universo criativo da cantora.

Essa mesma relação com o cinema, porém, partindo de uma abordagem diferente, acaba se refletindo na trilha sonora de Wuthering Heights (2026, Atlantic). Feito sob encomenda para a adaptação de Emerald Fennell de O Morro dos Ventos Uivantes (1847), da escritora Emily Brontë, o registro destaca a capacidade da artista em imprimir a própria identidade mesmo em um projeto marcado por limites pré-estabelecidos.

Inicialmente convidada a compor uma música para o filme, a cantora e o produtor Finn Keane, o easyFUN, desenvolveram uma trilha sonora completa, inspirada mais na atmosfera do livro do que em sua narrativa ou mesmo nos habituais exageros visuais de Fennell. O resultado desse processo está na entrega de uma obra que segue de onde a artista parou em Brat, ainda que de forma sombria e essencialmente dramática.

Não por acaso, a cantora fez de House a primeira música do disco a ser revelada. Completa pela inusitada participação de John Cale, ex-integrante do grupo The Velvet Underground, a faixa marcada pela atmosfera opressiva cumpre a função de ambientar o ouvinte e ainda aponta o caminho para o restante do material. São orquestrações sujas que se completam pela base sintética de Keane e a coprodução de Justin Raisen.

Mesmo quando dialoga com o pop, como em Wall of Sound, a britânica mantém firme a atmosfera densa e suja, garantindo maior homogeneidade ao material. A própria construção dos versos, sempre centrados em temas como obsessão amorosa, devoção extrema e a dor da ausência, contribui para esse resultado. É como se cada nova faixa abrisse passagem para a canção seguinte, orientando a experiência do ouvinte. Nada que inviabilize a entrega de algumas surpresas, como Eyes of the World, parceria com Sky Ferreira.

Nesse sentido, Wuthering Heights não apenas cumpre sua função como trilha sonora, mas também como obra independente. Ainda assim, muito do que se ouve aqui já fazia parte do repertório recente da artista. A dramaticidade, os sintetizadores densos e os versos sobre desejo obsessivo soam como uma adaptação cuidadosa da artista a um contexto gótico, mais do que como ruptura efetiva. Um habilidoso exercício de moldar o próprio universo a novas demandas, mas sem se afastar por completo de fórmulas que já domina.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.