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Crítica

Christine And The Queens

: "Paranoïa, Angels, True Love"

Ano: 2023

Selo: Because

Gênero: Pop

Para quem gosta de: Caroline Polachek e Shura

Ouça: To Be Honest e A Day In The Water

6.6
6.6

Christine And The Queens: “Paranoïa, Angels, True Love”

Ano: 2023

Selo: Because

Gênero: Pop

Para quem gosta de: Caroline Polachek e Shura

Ouça: To Be Honest e A Day In The Water

/ Por: Cleber Facchi 19/06/2023

Ao utilizar de uma identidade diferente durante o lançamento de Redcar Les Adorables Étoiles (Prologue) (2022),Héloïse Letissier parecia se eximir da estranha decisão em investir na produção de um repertório exageradamente lento, longo e estruturalmente repetitivo. Diferente dos antigos trabalhos apresentados sob a alcunha de Christine and the Queens, o cantor e compositor francês passou a se apresentar com o nome de Redcar, explorando a imagem de um homem misterioso e sedutor, para mergulhar em uma seleção de canções que, embora atrativas em uma audição inicial, pareciam simplesmente não levar a lugar algum.

Menos de um ano após o lançamento do registro, Letissier persiste no erro ao revelar as composições de Paranoïa, Angels, True Love (2023, Because). Segunda parte do trabalho que acabou se revelando como uma extensa ópera pop, o repertório de vinte faixas e 96 minutos tem seus momentos de maior beleza, porém, assim como o material que o antecede, peca pelo excesso. São canções que ultrapassam os dez minutos de duração, sempre apoiadas em uma estrutura que destaca o uso das batidas e comprime os instrumentos, efeito da produção homogênea, porém, limitante adotada pelo norte-americano Mike Dean.

Dividido em três partes, o trabalho sustenta no primeiro bloco de composições uma espécie de síntese poética e instrumental de tudo aquilo que será revelado ao público no decorrer do material. Como o próprio título aponta, são canções mergulhadas na mente e nas inquietações do personagem central, o que resulta em momentos de evidente vulnerabilidade emocional, como na delicada A Day In The Water, mas que tende aos exageros, como na derradeira Track 10, que se estende para além do necessário, ou mesmo a esquelética Angels Crying In My Bed, um dos três encontros de Letissier com Madonna ao longo do disco.

Uma vez ambientado ao trabalho e parcialmente exaurido pelos excessos da porção inicial, o ouvinte é introduzido ao segundo ato do registro. Livre de qualquer traço de urgência, conceito reforçado nos sintetizadores da introdutória Overture, o repertório de sete faixas avança em uma medida própria de tempo, destaca o refinamento dado aos arranjos, como em Flower Days, porém, custa a avançar. É como se o excesso de teatralidade, conceito empregado de maneira positiva nas apresentações ao vivo do cantor, consumisse o álbum que volta a se reerguer em True Love, bem sucedida colaboração com 070 Shake.

Esses altos e baixos seguem até o terceiro e último ato do registro. Se por um lado músicas como Shine e a arrastada I Feel Like An Angel pouco contribuem para o desenvolvimento do álbum, repetindo parte da estrutura e temas incorporados nos blocos iniciais, outras, como To Be Honest, reforçam o domínio e capacidade de Letissier em dialogar com o pop em uma abordagem essencialmente atrativa. A própria música de encerramento, Big Eye, parece alcançar um ponto de equilíbrio entre o experimentalismo e o lado mais acessível do cantor, corrigindo parte dos erros e excessos explícitos na porção inicial do disco.

Pena que esses momentos de maior acerto passam quase despercebidos frente ao volume excessivo de canções que pouco a pouco consomem a experiência do ouvinte. Da mesma forma que em Redcar Les Adorables Étoiles (Prologue), o problema de Paranoïa, Angels, True Love é a incapacidade de Latissier em organizar suas ideias. Mesmo a formatação reducionista das composições adotada por Mike Dean, produtor que já trabalhou com nomes como Kanye West e Beyoncé, parece contribuir para esse resultado, limitando o alcance do registro que parece interessante em conceito, mas que na prática não funciona.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.