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Crítica

Desire Marea

: "Desire"

Ano: 2020

Selo: Izimakade

Gênero: Experimental, Eletrônica, Art Pop

Para quem gosta de: Petite Noir e Yves Tumor

Ouça: Tavern Kween e You Think I'm Horny

8.0
8.0

Desire Marea: “Desire”

Ano: 2020

Selo: Izimakade

Gênero: Experimental, Eletrônica, Art Pop

Para quem gosta de: Petite Noir e Yves Tumor

Ouça: Tavern Kween e You Think I'm Horny

/ Por: Cleber Facchi 11/12/2020

A perturbadora imagem de capa de Desire (2020, Izimakade), estreia de Desire Marea em carreira solo, traz algumas pistas, porém, está longe de traduzir o real impacto e grandeza do som produzido pelo músico sul-africano. Conhecido pelo trabalho como integrante do FAKA, importante dupla de Joanesburgo, o artista que hoje reside na litorânea Durban, parece ter encontrado no criativo cruzamento de ideias a base para cada uma das composições que recheiam o registro. São experimentações com a música eletrônica, ruídos e vozes sempre raivosas, como se Marea, nascido Buyani Duma, transportasse para dentro de estúdio seus próprios medos, tormentos e inquietações.

E isso pode ser percebido logo nos primeiros minutos da obra, na sequência composta pela introdutória Self Center e Zibuyile Izimakade. São pouco menos de cinco minutos em que Marea se espalha em meio a sintetizadores inexatos, batidas tribais e instantes de profunda entrega emocional, intensidade que aumenta à medida em que o registro ganha forma. É como se o artista sul-africano preservasse a essência do material entregue pelo FAKA, porém, partindo de um novo direcionamento criativo, conceito que embala a experiência do ouvinte até a derradeira e extensa Studies in Black Trauma.

De fato, difícil não pensar em Desire como um trabalho feito para ser absorvido do início ao fim, sem pausas. É como se cada composição servisse de base para a faixa seguinte, arrastando o ouvinte para dentro de um território marcado pela permanente corrupção de ideias. Instantes em que Marea vai do completo reducionismo à turbulenta inserção das batidas, ruídos e abstrações sintéticas, conceito reforçado com naturalidade na dobradinha composta por Tavern Kween e Thokozani. São ecos de Petite Noir e Yves Tumor, porém, dissolvidos dentro da estranha base conceitual que tanto caracteriza as criações do músico sul-africano.

Exemplo disso pode ser percebido em You Think I’m Horny, terceira faixa do disco. Uma das primeiras composições do álbum a serem apresentadas ao público, a canção parte de uma base atmosférica, sempre regida pelas vozes instrumentais de Marea, porém, cresce no uso das batidas e sobreposições etéreas que poderiam facilmente ser encontradas em um disco de ANOHNI. “Honestamente, tudo que eu quero ser / É tudo que você precisar / Me ligue quando sentir minha falta“, confessa. É como se o cantor fizesse dos próprios desejos um precioso componente de diálogo com o ouvinte, convidado a se perder em instantes de maior melancolia e conflitos sempre intimistas.

Você brincou com meus sentimentos / Você brinca com meu tempo / Você joga com meu dinheiro / Você brinca com a minha vida / Você tentou me matar“, dispara em Ntokozo, outro importante registro da completa vulnerabilidade de Marea durante toda a execução da obra. São versos sempre regidos pela força dos sentimentos, proposta que ora convida o ouvinte a dançar, como nos minutos iniciais do trabalho, ora flutua em meio a ambientações jazzísticas e instantes de maior estranhamento, ponto de partida de toda a sequência de músicas que surgem até o fechamento do trabalho.

Tamanho domínio no processo de composição do trabalho reflete a imagem de um artista que sabe exatamente que direção seguir dentro de estúdio. Utilizando da experiência como integrante do FAKA, Marea potencializa as próprias habilidades e sentimentos durante toda a execução do álbum. São canções que partem de conflitos vividos pelo próprio artista, porém, ganham novo resultado na permanente desconstrução de cada novo elemento. Ruídos, batidas, melodias e vozes que se entrelaçam de forma sempre provocativa, cuidado que se reflete mesmo nos momentos menos expressivos da obra.


Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.