Image
Crítica

Julia Holter

: "Materia"

Ano: 2026

Selo: Domino

Gênero: Art Pop

Para quem gosta de: Jenny Hval e Holly Herndon

Ouça: My Lost One e The Laugh Is in the Eyes

7.5
7.5

Julia Holter: “Materia”

Ano: 2026

Selo: Domino

Gênero: Art Pop

Para quem gosta de: Jenny Hval e Holly Herndon

Ouça: My Lost One e The Laugh Is in the Eyes

/ Por: Cleber Facchi 07/09/2026

A música de Julia Holter é feita de processos. Alguns são bastante solitários, como no começo de carreira, quando mergulhou em preciosidades como Tragedy (2011) e Ekstasis (2012). Já outros, como Aviary (2018) e Something in the Room She Moves (2024), são complexos e colaborativos, como se a cantora encontrasse na fina sobreposição dos elementos o estímulo para a formação de um repertório essencialmente orgânico.

Interessante perceber em Materia (2026, Domino), mais recente lançamento da artista norte-americana, um trabalho que combina esses dois extremos da obra de Holter. Pensado como um complemento ao material entregue em Something in the Room She Moves, o registro apresenta releituras de músicas já conhecidas e canções inéditas em uma reflexão pertinente sobre o que define a conclusão desses processos em estúdio.

Partindo da própria faixa-título do disco, originalmente apresentada em Something in the Room She Moves, Holter e seus parceiros desdobram novas versões para a mesma composição. Em Materia 2, por exemplo, é a percussão reducionista e o uso etéreo das vozes que orientam a atuação da musicista. Já em Materia 3, no encerramento do álbum, esses processos são ainda mais simplificados, evidenciando a crueza do trabalho.

Ainda que muitos desses caminhos percorridos pela artista em estúdio resultem em canções que parecem mais esboços do que ideias completas, como Clepsydra, Holter busca, na maior parte do tempo, tensionar a própria criação. Exemplo disso pode ser percebido em My Twin. São pouco mais de dez minutos em que a cantora busca fragmentar e reorganizar os próprios pensamentos em uma faixa marcada pelo surrealismo.

Embora parta de uma abordagem exploratória, deixando pontas soltas aqui e ali, a cantora jamais se afasta por completo do pop de câmara que tem explorado desde o amadurecimento artístico em Have You in My Wilderness (2015). A própria sequência de abertura do registro, formada por The Laugh Is In The Eyes, My Lost One e Fantasy, destaca o refinamento técnico e o comprometimento de Holter com o próprio público.

Produzido em parceria com Kenny Gilmore, Materia é mais um registro documental sobre o fazer artístico do que necessariamente uma obra completa. É como se, do caminho apontado em Something in the Room She Moves, Holter fosse além. São ideias em desconstrução e canções que trazem novos significados para antigos conceitos, como um mergulho na mente e nas inquietações sentidas pela artista dentro de estúdio.

Ouça também:

Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.