Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, Jazz
Para quem gosta de: Earl Sweatshirt e KeiyaA
Ouça: TRS, Off Tha Strength e Full Hands
Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, Jazz
Para quem gosta de: Earl Sweatshirt e KeiyaA
Ouça: TRS, Off Tha Strength e Full Hands
Conhecido pelo trabalho como colaborador de nomes como Earl Sweatshirt e MIKE, Medhane Olushola passou os últimos meses se revezando em uma série de registros inéditos. Primeiro, foi a vez do soturno Own Pace (2019), álbum em que se aprofunda em temáticas intimistas, depressão e versos existenciais enquanto estreita a relação com diferentes nomes do rap estadunidense. Em seguida, foi a vez do complementar Full Circle (2020), EP entregue ao público no início deste ano e um indicativo claro do forte discurso político que recheia as criações do artista, sempre inclinado ao uso de temas atmosféricos, batidas e ambientações pouco usuais.
Nada que se compare ao material entregue em Cold Water (2020, Independente). Segundo e mais recente álbum de estúdio do rapper norte-americano, o trabalho concebido em meio a sobreposições inexatas, ruídos e fragmentos extraídos de diferentes campos da música nasce como um convite a se perder em um universo próprio do artista original do Brooklyn, em Nova Iorque. São camadas instrumentais que surgem e desaparecem, abstrações jazzísticas e a rima sempre precisa, direta, como se Olushola soubesse exatamente que direção seguir dentro de cada canção.
“Desperto por dias / Movendo pelo labirinto / Sonhando acordado / Moldura com cicatrizes / Trabalhando até ver mudanças“, rima na introdutória Off Tha Strength. São versos curtos em que discute a passagem do tempo e a constante sensação de deslocamento do eu lírico. Instantes em que o artista evoca a mesma ambientação sombria de I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside (2015) e Some Rap Songs (2018), do já citado Sweatshirt, porém, em um sentido menos abstrato e naturalmente contemplativo, conceito reforçado pela voz acolhedora da conterrânea KeiyaA, conterrânea nova-iorquina que transporta para dentro de estúdio parte da atmosfera detalhada no ainda recente Forever, Ya Girl (2020).
De fato, são essas pequenas colaborações e encontros com outros artistas que sutilmente ampliam a obra de Medhane. É o caso de TRS, música adornada pelo uso de temas jazzísticos e vozes do convidado Navy Blue, colaborador do rapper desde o álbum anterior. O mesmo cuidado acaba se refletindo mais à frente, em Full Hands, reencontro com Maxo e a passagem para o lado mais sensível da obra. São versos em que a dupla discute o sofrimento do homem negro, estrutura que se completa pelo uso de guitarras cíclicas, ruídos e batidas sempre claustrofóbicas, conceito que acaba se refletindo em outros momentos ao longo do álbum.
São construções labirínticas, o uso complementar de pianos e guitarras tratadas de forma sempre atmosférica, proposta que ora aponta para as criações acinzentadas de Ka, uma das principais referências criativas de Medhane, ora dialoga para o mesmo experimentalismo de Shabazz Palaces e demais artistas que apontam para o rap cósmico. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em Watch My Step, nona composição do disco. São pouco mais de três minutos em que o rapper flutua em meio a sintetizadores e vozes psicodélicos, estrutura que aporta em um território completamente distinto na faixa seguinte, a também inexata Truth & Soul.
É dentro desse território marcado por pequenas incertezas, proposta que se reflete logo nos primeiros minutos do disco, que Medhane orienta a experiência do público até a derradeira On Me/You. Canções que atravessam a mente inquieta do artista, discutem depressão, medo e isolamento de forma sempre intimista. São versos despidos de uma possível maquiagem conceitual, porém, adornados pelo uso de ambientações delirante e batidas tortas. Frações poéticas e experiências sentimentais que passeiam pelos mais variados campos da música, como se diferentes obras fossem condensadas dentro de um único registro.
Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea, integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música e membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, DJ nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.