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Crítica

Neurosis

: "An Undying Love for a Burning World"

Ano: 2026

Selo: Neurot

Gênero: Rock

Para quem gosta de: Isis e Cult of Luna

Ouça: First Red Rays, Mirror Deep e Last Light

8.0
8.0

Neurosis: “An Undying Love for a Burning World”

Ano: 2026

Selo: Neurot

Gênero: Rock

Para quem gosta de: Isis e Cult of Luna

Ouça: First Red Rays, Mirror Deep e Last Light

/ Por: Cleber Facchi 14/04/2026

Muito além de um celebrado retorno, An Undying Love for a Burning World (2026, Neurot) é um recomeço. Primeiro trabalho de inéditas do Neurosis desde a expulsão do vocalista e membro fundador Scott Kelly – denunciado após uma série de abusos contra a própria esposa e filhos –, o sucessor do álbum Fires Within Fires (2016) reapresenta o projeto e mostra uma banda tão entusiasmada quanto em seus melhores anos.

Hoje formado por Dave Edwardson, Jason Roeder, Steve Von Till, Noah Landis e Aaron Turner, membro do Isis e Sumac que assume a posição deixada por Kelly, o grupo traz de volta o que há de mais característico na identidade do Neurosis. São canções que combinam diferentes gêneros, como o sludge, o rock industrial e a produção psicodélica, sempre alternando entre criações expansivas e faixas essencialmente dinâmicas.

A própria sequência de abertura do disco, formada por Mirror Deep e First Red Rays, revela isso. Passado o grito inaugural de We Are Torn Wide Open, o quinteto se especializa no contraste entre instantes de maior urgência que antecedem momentos de densa contemplação. É como uma interpretação ainda mais intensa, raivosa e estruturalmente complexa em relação a álbuns como o cultuado Through Silver in Blood (1996). Não se trata de algo exatamente novo, mas uma reinterpretação de antigos conceitos, arranjos e temáticas.

Essa mesma fluidez no processo de composição acaba se refletindo na elaboração dos versos. Espécie de manifesto existencial em tempos de crise, An Undying Love for a Burning World trata sobre a desconexão humana, a mortalidade e valores como solidariedade em um cenário consumido pela corrupção. Canções que dialogam com o panorama político dos Estados Unidos sem necessariamente parecerem panfletárias.

Ainda assim, é quando mergulha em tormentos intimistas, revelando fragilidades emocionais, que o grupo garante ao público algumas de suas melhores criações. Escolhida para o encerramento do disco, Last Light, com quase 17 minutos de duração, torna isso bastante explícito. Enquanto a base instrumental evidencia a complexidade da banda em estúdio, versos soturnos abordam o luto e a consciência da mortalidade como parte de um processo difícil de ser ignorado. Um misto de desespero e necessário exercício de libertação.

Com base nessa estrutura, difícil não pensar em An Undying Love for a Burning World como uma metáfora para as próprias experiências vividas pela banda nos últimos anos. Em um cenário consumido pelo caos, o grupo tenta se reerguer, fazendo desse turbulento processo criativo o estímulo para um registro que utiliza justamente de escombros estéticos, sonoros e líricos para fortalecer estruturas e reconstruir sua imagem.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.