Ano: 2026
Selo: YB Music
Gênero: MPB
Para quem gosta de: Rodrigo Campos e Kiko Dinucci
Ouça: A Casa de Pé e A Minha Vida Sem Você
Ano: 2026
Selo: YB Music
Gênero: MPB
Para quem gosta de: Rodrigo Campos e Kiko Dinucci
Ouça: A Casa de Pé e A Minha Vida Sem Você
O que permanece quando tudo chega ao fim? Em Boneca Russa (2026, YB Music), novo álbum de inéditas de Romulo Fróes, o cantor e compositor paulistano parte do fim do relacionamento com a pesquisadora e compositora Alice Coutinho, companheira musical e de vida, para refletir sobre a temática do término de forma sóbria. Canções que rejeitam visões idealizadas para abraçar uma poética crua, quase documental.
Estrategicamente lançado pelo músico em uma quarta-feira de cinzas, Boneca Russa se articula como um melancólico desfile carnavalesco. A cada nova faixa, uma ala diferente, com cenas e acontecimentos que partilham de um mesmo samba-enredo. Entretanto, longe da progressão natural de um cortejo, as imagens poéticas de Fróes parecem dançar pelo tempo, como fragmentos de memórias que se revelam aos poucos.
“Eu recolho das casas que ainda carrego comigo / Um vestígio fantasma memória de um dia banal”, canta o artista em Um Domingo Sem Luz, canção que sintetiza esse lirismo sensorial e sempre descritivo do disco. É como se, em busca de respostas e da amarga aceitação, Fróes repassasse antigas lembranças, vasculhando escombros sentimentais de maneira analítica e densa, assumindo a aspereza das experiências amorosas.
Embora parta de uma abordagem ponderada, enfrentando o final de um relacionamento com dignidade, sem ressentimentos ou cinismo, Fróes jamais oculta os momentos de intensa fragilidade. “A minha vida sem você / O que vier o que calhar / Já não me importa o que vai ser / Eu não me importo mendigar”, confessa em A Minha Vida Sem Você. A própria A Hora Mágica, logo na abertura do trabalho, aponta a direção para o restante do material. “E seu bloco não para pra mim / E eu te deixo escapar por um triz”, reflete o cantor.
Enquanto os versos funcionam como um passeio pela mente e os sentimentos de Fróes, em se tratando da arquitetura sonora do registro, tudo gira em torno do baixo de Marcelo Cabral. Fragmentado para atender às demandas de cada canção, o instrumento é tanto uma ferramenta percussiva em Vaso Ruim, como uma guitarra metálica em A Casa de Pé ou mesmo um violoncelo no acabamento sombrio de Renda Portuguesa.
Contudo, esse reducionismo instrumental e temático cobra seu preço. Ao optar por uma base econômica e por variações mínimas de andamento, Fróes flerta com a ausência de pulso e com pequenas repetições estruturais que, observadas em sequência, fazem o disco soar como uma extensa composição arrastada. Paradoxalmente, é essa recusa em acelerar ou aliviar o peso das palavras que sustenta a carga emocional de Boneca Russa. A monotonia calculada aos poucos se transforma em atmosfera, e a sensação de duração excessiva reverbera como a própria experiência do luto, prolongada, circular e difícil de ser encerrada.
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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.