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Crítica

DIIV

: "Frog In Boiling Water"

Ano: 2024

Selo: Fantasy

Gênero: Rock, Shoegaze

Para quem gosta de: Wild Nothing e Deerhunter

Ouça: Brown Paper Bag, Soul-Net e Everyone Out

7.8
7.8

DIIV: “Frog In Boiling Water”

Ano: 2024

Selo: Fantasy

Gênero: Rock, Shoegaze

Para quem gosta de: Wild Nothing e Deerhunter

Ouça: Brown Paper Bag, Soul-Net e Everyone Out

/ Por: Cleber Facchi 20/06/2024

Frog In Boiling Water (2024, Fantasy) talvez seja o álbum menos original já produzido pelo DIIV, contudo, segue como um dos mais fascinantes. Do momento em que tem início, nas guitarras sujas e arrastadas de In Ambar, fica bastante evidente o esforço dos músicos Zachary Cole Smith, Andrew Bailey, Colin Caulfield e Ben Newman em não apenas resgatar uma série de componentes e referências estéticas que apontam para o início da década de 1990, como em ampliar criativamente parte desses mesmos elementos estruturais.

Das vozes submersas que parecem resgatadas de algum disco do Slowdive, passando pela texturas das guitarras que instantaneamente evocam as criações de Kevin Shields, tudo soa tão íntimo das criações de veteranos do shoegaze/dream pop, como da própria banda. São oceanos de distorção que avançam em uma medida própria de tempo, proposta que dialoga com a parábola explícita no título da obra, mas que ajuda a entender a lenta progressão do registro, como um contraponto aos primeiros álbuns da banda.

Se em Oshin (2012) e Is the Is Are (2016) as guitarras pareciam seguir um percurso sinuoso e frenético, efeito direto da bateria ritmada que orientava cada composição, em Frog In Boiling Water o grupo segue o caminho oposto. São blocos colossais de ruídos que avançam em linha reta sobre o ouvinte, criando uma opressiva sensação de sufocamento que dialoga diretamente com a composição das letras. Longe dos temas românticos/existenciais típicas do gênero, são os versos políticos que destacam a atuação do DIIV.

Somos apenas alimento para a operação do exército“, reflete Smith na provocativa Raining On Your Pillow, composição que discute o impacto do imperialismo estadunidense e a sensação de abandono vivida pelos indivíduos consumidos por esse modelo opressivo. E ela não é a única. Música após música, o quarteto se aventura na construção de um repertório marcado pela sensação de decadência. Personagens, cenas e sentimentos conflitantes que ganham forma em um ambiente sujo, sempre consumido pelo som ruidoso.

Mesmo quando os versos utilizam de uma abordagem esperançosa, como em Everyone Out (“Pronto para minha vida / Mal posso esperar“) e Soul-Net (“Basta dizer: ‘não tenho medo, eu amo minha dor, eu sei que posso sair desta prisão’“), há sempre uma sensação de desconfiança, como se Smith cantasse à beira de um abismo. Momentos de breve libertação sentimental e poética, porém, brutalmente rompidos pela inserção de canções que se projetam de forma ainda mais angustiante, como em Little Birds e Somber the Drums.

Nesse sentido, o que falta de originalidade na construção dos arranjos, sobra no meticuloso tratamento dado aos versos. A exemplo de outros exemplares recentes do shoegaze, como Night​-​Bound Eyes Are Blind To The Day (2024), dos ingleses do Whitelands, Frog In Boiling Water abre passagem para uma nova fase no gênero, substituindo o romantismo enevoado de outrora, por vezes escapista em excesso, pela entrega de um repertório marcado pelo forte discurso político e sempre atento contato da banda com a realidade.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.