Ano: 2026
Selo: 4AD
Gênero: Folk
Para quem gosta de: Cate Le Bon e Jessica Pratt
Ouça: One Stop, Venus In The Zinnia e I Ate The Most
Ano: 2026
Selo: 4AD
Gênero: Folk
Para quem gosta de: Cate Le Bon e Jessica Pratt
Ouça: One Stop, Venus In The Zinnia e I Ate The Most
O rosto pintado de azul na imagem de capa de Train On The Island (2026, 4AD), mais recente trabalho de Aldous Harding, é bastante representativo. Dona de uma poesia enigmática, a cantora neozelandesa pode até se conectar com o público, mas está longe de se revelar por completo. São canções repletas de imagens surrealistas, difíceis de interpretar, deixando ao ouvinte o exercício de construir seus próprios significados.
Mais uma vez acompanhada de John Parish (PJ Harvey, Dry Cleaning), com quem tem colaborado desde o soturno Party (2017), a artista se aventura na construção de um repertório que fascina mesmo sem grandes esforços. Do uso misterioso das vozes ao tratamento acústico dado aos arranjos, sempre embriagados pelo folk psicodélico das décadas de 1960 e 1970, Harding trilha sempre os caminhos menos óbvios em estúdio.
A própria música de abertura, I Ate the Most, sintetiza isso. Enquanto a produção diminuta detalha o uso de pianos elétricos e batidas calculadas, versos labirínticos unem memórias fragmentadas da infância, medos, transtornos emocionais e a sensação de inadequação para tratar sobre traumas psicológicos e identidade. As pistas estão por todas as partes, porém a cantora nunca oferece as respostas, brincando com o ouvinte.
Embora misterioso, Train On The Island está longe de parecer inacessível. Difícil passar por músicas como Venus In The Zinnia, parceria com H. Hawkline, e não ser prontamente seduzido pela artista. A própria voz da cantora surge com maior destaque e intensidade ao longo da obra, como em One Stop, faixa que dialoga com as criações de Jessica Pratt e outros nomes do gênero sem jamais corromper a identidade de Harding.
Ainda assim, a arquitetura reducionista do disco resulta na entrega de canções estruturalmente similares, com pouca variabilidade entre as faixas. Falta ao disco a mesma riqueza de ideias explícita em obras como Designer (2019) e Warm Chris (2022). Entretanto, como indicado durante toda a execução do registro, é na força da palavra e na subjetividade inebriante que reside a real força do repertório montado pela cantora.
A exemplo de tudo aquilo que a artista tem explorado desde o início da carreira, Train On The Island é um álbum feito para ser absorvido aos poucos, sem pressa. Entre canções atmosféricas, como San Francisco, e faixas imediatas, como Coats, Harding espalha as peças e concede ao ouvinte a chance de formar a imagem desse quebra-cabeça sensorial. Um exercício tão misterioso e complexo quanto fascinante e inescapável.
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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.