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Crítica

Alice Caymmi

: "Caymmi"

Ano: 2026

Selo: Daluz Música

Gênero: MPB, Pop

Para quem gosta de: Marina Sena e Céu

Ouça: Maracangalha, Acalanto e Canto de Obá

7.6
7.6

Alice Caymmi: “Caymmi”

Ano: 2026

Selo: Daluz Música

Gênero: MPB, Pop

Para quem gosta de: Marina Sena e Céu

Ouça: Maracangalha, Acalanto e Canto de Obá

/ Por: Cleber Facchi 11/05/2026

Se existe uma pessoa que tem autorização para brincar com o repertório de Dorival Caymmi, esse alguém é Alice Caymmi. Desde a estreia, quando trouxe contornos sombrios a Sargaço Mar, que a cantora carioca tem buscado diferentes possibilidades para mergulhar na obra do próprio avô, proposta que ganha outro significado em Caymmi (2026, Daluz Música), disco totalmente dedicado às canções do compositor baiano.

Com produção assinada por Iuri Rio Branco (Marina Sena, Don L), o registro atualiza a obra de Caymmi da mesma forma que Gal Costa propôs cinco décadas antes com Gal Canta Caymmi (1976). São composições escolhidas a dedo que preservam as temáticas marítimas, as personagens românticas e a religiosidade do compositor baiano, porém, partindo de uma linguagem e identidade estética que dialoga com o pop atual.

No caso de Alice, a artista decidiu mirar nos ritmos latinos e no acabamento eletrônico das faixas, proposta que se aproxima de cantoras como Melly e Marina Sena, sem necessariamente corromper a identidade da artista. Exemplo disso acontece em Maracangalha, composição que dialoga com a música afro-caribenha de maneira ensolarada, destacando a inserção dos metais, guitarras radiantes e componentes percussivos.

A própria escolha de O que é que a baiana tem? como música de abertura do disco sintetiza isso. Uma das canções mais icônicas e regravadas do repertório de Caymmi, a faixa ganha novo tratamento ao criar uma conexão entre o pagodão baiano e o reggae. Essa mesma relação com os ritmos jamaicanos se repete em Eu não tenho onde morar, criação que deixa de lado o samba da versão original para brincar com o dub.

Claro que isso não interfere na entrega de canções que trilham caminhos mais óbvios, esbarrando na MPB tradicional. São faixas como Dora e O Bem do Mar que, mesmo comportadas, destacam a força das vozes de Alice. Surgem ainda composições que alcançam um ponto de equilíbrio entre esses dois extremos da obra, como a celebração à própria família, em Canto de Obá, além de momentos de maior experimentação, caso da soturna Acalanto, música que parece saída diretamente do repertório de Rainha dos Raios (2014).

Embora parta de uma abordagem exploratória, Alice jamais perde o controle da própria criação, evitando os excessos do registro anterior, Imaculada (2021). É como se tudo orbitasse um mesmo universo criativo, proposta que se reflete não apenas pela seleção do repertório assinado pelo mesmo artista, mas na forma como arranjos, ritmos e vozes trabalham em conjunto, celebrando Caymmi sem deixar de pensar no todo.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.