Ano: 2026
Selo: Dead Oceans
Gênero: Rock
Para quem gosta de: Fiona Apple e Japanese Breakfast
Ouça: I'll Change for You e Where's My Phone?
Ano: 2026
Selo: Dead Oceans
Gênero: Rock
Para quem gosta de: Fiona Apple e Japanese Breakfast
Ouça: I'll Change for You e Where's My Phone?
A casa como uma metáfora para o corpo e a mente talvez seja um dos objetos temáticos mais explorados em diferentes manifestações artísticas. Do cinema de Bong Joon-Ho e Darren Aronofsky, passando pela literatura de Edgar Allan Poe e os ensaios filosóficos do francês Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço (1957), sobram diferentes tratados que encontram no conceito do lar um território aberto à exploração.
Oitavo e mais recente álbum de estúdio de Mitski, Nothing’s About To Happen To Me (2026, Dead Oceans) encontra na relação com a casa o estímulo para uma obra que trata sobre a fuga da exposição, isolamento e a solidão como um refúgio necessário. É como se, passada a intensa repercussão em torno de The Land Is Inhospitable and So Are We (2023), trabalho catapultado pelo sucesso em torno da faixa My Love Mine All Mine, a cantora e compositora norte-americana buscasse por um espaço particular de fuga da realidade.
“Vou cortar o cabelo, serei outra pessoa / E quando eu deixar meu corpo / Por favor, finja que você não vê”, canta em Rules, música que sintetiza parte desse lirismo atormentado que move o disco. São canções que habitam tanto espaços físicos quanto psicológicos, revelando a lenta degradação mental da protagonista que se perde em meio a fantasias românticas, fragmentos de memórias e delírios sobre a própria morte.
Embora parta de uma abordagem conceitual, como se todas as composições orbitassem um mesmo objeto temático, Mitski preserva a individualidade de cada canção. E isso se reflete não apenas no lirismo da obra, que equilibra lucidez e estranhamento, mas na base instrumental do trabalho. Mais uma vez acompanhada pelo produtor Patrick Hyland, a artista vai de um canto a outro sem jamais perder o controle do material.
Em Where’s My Phone?, logo na abertura do trabalho, são guitarras urgentes e efeitos que apontam para o repertório de Puberty 2 (2016) e Laurel Hell (2022). Já em Cats, minutos à frente, são ambientações sutis e diálogos com a música americana. Nada que prepare o ouvinte para I’ll Change For You, faixa que destaca a recorrente submissão romântica de Mitski e fascina pelo inusitado diálogo da artista com a bossa nova.
Independentemente da direção percorrida em estúdio, prevalece em Nothing’s About To Happen To Me um senso de contenção poucas vezes antes percebido na obra da cantora. Mesmo quando o eu lírico ameaça desabar, a musicista opta por um registro moderado, quase comedido, limitando a dramaticidade e a força poética explícita que em outros momentos irrompia sem freios, como nas faixas de Be The Cowboy (2018).
Essa escolha pode soar menos impactante à primeira escuta, mas reforça a coerência interna do disco e a atmosfera de recolhimento calculado. Difícil não se deixar conduzir pelo lento desvendar de sensações em músicas como In a Lake, If I Leave e todo o fino repertório confessional detalhado pela artista. Como quem caminha pelos cômodos da própria casa, pela primeira vez Mitski parece preferir os sussurros aos gritos.
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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.