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Crítica

Kehlani

: "Crash"

Ano: 2024

Selo: Atlantic

Gênero: R&B

Para quem gosta de: Tinashe e Victoria Monét

Ouça: After Hours e Tears

6.0
6.0

Kehlani: “Crash”

Ano: 2024

Selo: Atlantic

Gênero: R&B

Para quem gosta de: Tinashe e Victoria Monét

Ouça: After Hours e Tears

/ Por: Cleber Facchi 10/07/2024

De todos os principais nomes do R&B que surgiram ao longo da última década, como Jhené Aiko, H.E.R. e Teyana Taylor, Kehlani segue como uma das mais consistentes. Mesmo antes de estrear oficialmente com o elogiado SweetSexySavage (2017), a cantora e compositora californiana acumulava uma sequência de boas mixtapes, como You Should Be Here (2015), indicando um refinamento estético que seria potencializado de forma ainda mais expressiva nos posteriores It Was Good Until It Wasn’t (2020) e Blue Water Road (2022).

Pena que esse mesmo capricho no processo de composição não seja percebido em Crash (2024, Atlantic). Quarto e mais recente trabalho de estúdio da artista norte-americana, o registro que passou pelas mãos de diferentes produtores, como os experientes Ant Clemons, Dixson e Oak Felder, se revela ao público como uma obra essencialmente confusa. São diferentes atravessamentos de informações e lampejos interessantes de ideias, mas que em nenhum momento alcançam um ponto de equilíbrio ou mínima estabilidade criativa.

A própria composição de abertura, bruscamente cortada por uma estranha transmissão de rádio, funciona como uma boa representação dessa abordagem incerta explorada pela artista. São pouco mais de quatro minutos em que Kehlani parte de uma balada grandiosa para logo em seguida mergulhar em um confuso R&B reducionista. É como se toda a consistência explícita mesmo em registros de menor grandeza, como na mixtape While We Wait (2019), fosse aos poucos substituída por uma abordagem totalmente instável.

Mesmo quando estreita laços com diferentes parceiros criativos, Kehlani parece incerta do que procura desenvolver. Exemplo disso pode ser percebido em Sucia, composição em que tira pouco proveito da voz impecável de Jill Scott, tropeça em um espanhol vergonhoso e ainda encaixa a porto-riquenha Young Miko em uma base arrastada. Mas tudo bem, afinal, nada disso tem importância, visto que na canção seguinte, Better Not, a cantora mais uma vez muda de direção, flertando de maneira genérica com a música country.

A questão é que quando Kehlani acerta, ela acerta em cheio. Perfeita representação desse resultado fica mais do que evidente nos momentos em que artista se entrega ao pop. É o caso de After Hours, música em que destaca a construção das batidas, não economiza no uso da própria voz e ainda abre passagem para a inusitada What I Want, com sample de What a Girl Wants, de Christina Aguilera. Essa mesma riqueza de ideias se reflete minutos à frente, na dobradinha composta por Tears e Vegas, também destaques do disco.

Lamentavelmente, para cada boa composição do trabalho, Kehlani reserva ao público outras duas ou mais canções de menor impacto. São músicas que talvez funcionassem isoladamente ou separadas em um registro menor, porém, acabam se perdendo frente aos excessos e indecisões da artista que há muito já demonstrou seu talento em estúdio. Tal qual a imagem de capa do disco, Crash é um verdadeiro acidente de percurso na obra da cantora, mas que em nenhum momento diminui seu charme ou deixa de brilhar.

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Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.