
É hora de olhar para trás e relembrar alguns dos principais lançamentos relacionados ao mundo da música nos últimos seis meses. Da estreia de artistas como Bia Soull, Hemlocke Springs e QuedaLivre, passando por grandes nomes da música brasileira, como Seu Jorge, Juçara Marçal e Mombojó, ao retorno de personagens importantes da indústria, como Robyn, Gorillaz e Boards of Canada, trago uma seleção com 50 discos essenciais apresentados entre janeiro e junho deste ano. Qual é o seu favorito?
Aldous Harding
Train On The Island (2026, 4AD)
O rosto pintado de azul na imagem de capa de Train On The Island, mais recente trabalho de Aldous Harding, é bastante representativo. Dona de uma poesia enigmática, a cantora neozelandesa pode até se conectar com o público, mas está longe de se revelar por completo. São canções repletas de imagens surrealistas, difíceis de interpretar, deixando ao ouvinte o exercício de construir seus próprios significados. Mais uma vez acompanhada de John Parish (PJ Harvey, Dry Cleaning), com quem tem colaborado desde o soturno Party (2017), a artista se aventura na construção de um repertório que fascina mesmo sem grandes esforços. Do uso misterioso das vozes ao tratamento acústico dado aos arranjos, sempre embriagados pelo folk psicodélico das décadas de 1960 e 1970, Harding trilha sempre os caminhos menos óbvios em estúdio. Leia o texto completo.
Alice Caymmi
Caymmi (2026, Daluz Música)
Se existe uma pessoa que tem autorização para brincar com o repertório de Dorival Caymmi, esse alguém é Alice Caymmi. Desde a estreia, quando trouxe contornos sombrios a Sargaço Mar, que a cantora carioca tem buscado diferentes possibilidades para mergulhar na obra do próprio avô, proposta que ganha outro significado em Caymmi, disco totalmente dedicado às canções do compositor baiano. Com produção assinada por Iuri Rio Branco (Marina Sena, Don L), o registro atualiza a obra de Caymmi da mesma forma que Gal Costa propôs cinco décadas antes com Gal Canta Caymmi (1976). São composições escolhidas a dedo que preservam as temáticas marítimas, as personagens românticas e a religiosidade do compositor baiano, porém, partindo de uma linguagem e identidade estética que dialoga com o pop atual. Leia o texto completo.
American Football
American Football (2026, Polyvinyl)
Desde que retomaram suas atividades, no meio da década passada, os integrantes do American Football têm investido na construção de um repertório cada vez mais amplo e exploratório. Outrora uma das bases do movimento emo, o grupo formado pelos irmãos Mike e Nate Kinsella, Steve Holmes e Steve Lamos trilha um caminho cada vez mais atmosférico, direcionamento reforçado no quarto álbum de estúdio da carreira. Primeiro disco de inéditas da banda em sete anos, o sucessor do homônimo álbum de 2019 segue de onde o grupo de Illinois parou no registro anterior, porém incorpora uma abordagem ainda mais labiríntica. Do uso quase transcendental das guitarras, esbarrando no pós-rock, à sempre calculada inserção das batidas e vozes, cada mínimo fragmento da obra avança em uma medida particular de tempo, cercando o ouvinte. Leia o texto completo.
Antropoceno
No Ritmo Da Terra (2026, Longinus)
Segundo capítulo da série de discos inspirados na obra do ambientalista, escritor e filósofo brasileiro Ailton Krenak, No Ritmo da Terra revela o domínio criativo de Lua Viana em relação ao próprio trabalho no Antropoceno. Sequência ao material entregue em Natureza Morta (2025), o registro deixa de lado a abordagem incipiente do álbum anterior para melhor organizar suas ideias, temas e bases rítmicas. Conhecida pela obra com a Sonhos Tomam Conta, a artista carioca radicada em São Paulo mantém firme a relação com o shoegaze/dream pop, porém subverte a estética estrangeira ao inserir elementos de samba, música de capoeira e afoxé de maneira decolonial. A própria temática das faixas, pautadas por questões ambientais e na ideia de futuro ancestral de Krenak, contribui para esse aspecto político do disco, conceito reforçado na capa de Poty Galaco, uma releitura da tela Missionário Sendo Comido Por Uma Onça (1907). Leia o texto completo.
Aya Ibeji
Ativação Travesti (2026, Independente)
Em Ativação Travesty, as batidas funcionam tanto como um convite a se perder nas pistas de dança como uma celebração à identidade de Aya Ibeji. Produtora conhecida na cena eletrônica brasileira, a DJ de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, estreia em grande estilo com um trabalho que parte da música house para mergulhar nas experiências da própria artista como uma mulher transsexual e negra. Inaugurado de forma atmosférica pelo som borbulhante de Quando Escuto Meu Coração Oceano, o álbum pode até seguir uma proposta contida em seus minutos iniciais, porém logo se revela por completo para o ouvinte. São canções que incorporam elementos da cultura da ballroom, como a batida com acento rítmico, antecipando a performance do vogue, mas que em nenhum momento se limitam a um conceito específico. Leia o texto completo.
Bebé
Dissolução (2026, Loco Records)
A imagem de Bebé adentrando a mata escura na capa de Dissolução não poderia ser mais representativa. Primeiro disco em que a cantora e compositora paulista assina a produção, o sucessor de Salve-se! (2024) mostra uma artista ainda mais exploratória e curiosa, por vezes difícil de ser absorvida, mas nunca óbvia. São canções que se revelam aos poucos, sem pressa, detalhando ruídos, texturas e vozes. E não poderia ser diferente. Com um título que parte da condição de dissolver para transformar, a cantora desconstrói tudo aquilo que vem sendo explorado desde o autointitulado registro de estreia. Acompanhada pelo irmão, o multi-instrumentista e produtor Felipe Salvego, Bebé brinca com a fragmentação das batidas, espalha guitarras embriagadas pelo jazz e esbarra no etéreo, porém, mantendo firme a clareza das ideias. Leia o texto completo.
Bia Soull
Pornografia Auditiva (2026, Warner)
Ninguém fala sobre sexo como Bia Soull. Poetisa do erotismo, a artista paranaense radicada em São Paulo passou os últimos anos penetrando a cena do funk paulista com uma sequência de composições marcadas pelo desejo, porém pontuadas pelo bom humor. Da poesia explícita de Sem Moralismo, com D.Silvestre, ao toque cômico da viral Pompoarismo, de MU540, sobram momentos de evidente lascívia e fina provocação. Não por acaso, ao mergulhar em Pornografia Auditiva, primeiro álbum de estúdio de Soull, o esperado amadorismo, típico de um disco de estreia, dá lugar a um registro que emana maturidade. São composições que escancaram o domínio da cantora na construção dos versos e ainda elevam a qualidade da produção, concedendo ao funk paulista um requinte semelhante ao de nomes como Kelela e FKA Twigs. Leia o texto completo.
Bill Callahan
My Days Of 58 (2026, Drag City)
Poucas vezes antes Bill Callahan pareceu tão exposto liricamente quanto em My Days Of 58. Sequência ao material entregue em Ytilaer (2022), o álbum de acabamento autobiográfico deixa de lado a ambiguidade e o tom enigmático dos primeiros registros para tratar sobre paternidade, casamento e mortalidade de forma bastante direta. Um exercício poético profundamente pessoal, mas nunca inacessível. Não por acaso, em novembro do último ano, quando anunciou o trabalho, Callahan fez da confessional The Man I’m Supposed to Be a primeira composição do disco a ser revelada ao público. Com versos que tratam sobre culpa e alienação, especialmente no contexto de um relacionamento amoroso, a faixa funciona como um confronto íntimo entre o músico e os próprios demônios, apontando o caminho para o restante da obra. Leia o texto completo.
Boards of Canada
Inferno (2026, Warp)
Se em Tomorrow’s Harvest (2013) Mike Sandison e Marcus Eoin ainda vislumbravam um futuro utópico, em Inferno (2026) o confronto com a realidade resulta no trabalho mais sombrio, político e desesperançoso do Boards of Canada. Primeiro álbum de inéditas da dupla escocesa em mais de uma década, o disco deixa de lado o teor etéreo do registro anterior para mergulhar em uma obra consumida pela decadência humana. Atravessado por elementos religiosos, ocultistas, metafísicos e existenciais, o trabalho de quase 70 minutos de duração é, como tudo aquilo que a dupla escocesa tem explorado desde o início da carreira, uma obra a ser desvendada pelo ouvinte. As peças desse imenso quebra-cabeças sensorial estão espalhadas durante toda a execução do registro, porém, sempre de maneira irregular, reforçando a aura de mistério do disco. Leia o texto completo.
Buhr
Feixe De Fogo (2026, Sound Department)
Mesmo em sua forma mais sintética, Buhr, artista anteriormente conhecida como Karina Buhr, permanece expansiva. Em Feixe De Fogo, primeiro trabalho de inéditas após um intervalo de sete anos, a baiana que cresceu no Recife limita o número de parceiros em estúdio, adota uma proposta reducionista e cria pequenos respiros que servem como alavancas para os momentos de intensa explosão. Concebido em conjunto com o produtor e multi-instrumentista Rami Freitas, o registro de onze canções diz a que veio logo nos primeiros minutos, na própria faixa-título. Enquanto os versos exploram a resiliência e o autoconhecimento por meio do enfrentamento da dor, camadas de guitarras, ruídos e texturas assinadas por Arto Lindsay e Fernando Catatau geram as bases para a composição que explode nos minutos finais. Leia o texto completo.
CESRV / Febem / Fleezus
Brime!! (2026, Beatwise Recordings / Empire)
Uma das obras mais celebradas do período pandêmico, Brime! (2020) ganha uma continuação que destaca o que há de melhor na relação entre CESRV, Febem e Fleezus. Enquanto o primeiro assume a produção do material, os outros dois se revezam na construção dos versos, proposta que faz de Brime!! (2026,) um trabalho tão interessante, fresco e provocativo quanto o registro que o antecede. Exemplo disso fica evidente logo na introdutória M.P.B. Misto de manifesto em defesa da vida nas periferias e uma celebração sobre a ascensão econômica do grupo, a canção redefine a ideia de “MPB” como “Música Periférica Brasileira”, destacando vivências, resistência e o protagonismo nas quebradas. É como um ensaio para aquilo que o trio busca desenvolver no decorrer do trabalho, ampliando os limites temáticos da obra. Leia o texto completo.
Chococorn And The Sugarcanes
Todos Os Cães Merecem o Céu (2026, +Um Hits)
O que quer que os integrantes do Chococorn And The Sugarcanes tenham apontado em Siamês (2024) cai por terra em Todos Os Cães Merecem o Céu. Segundo e mais recente trabalho de estúdio da banda formada por Alexandre Luz (bateria e voz), Pipe Bacchin (guitarra e voz), Pietro Sartori (baixo e voz) e Pedro Guerreiro (guitarra e voz), o registro deixa de lado o diálogo com a música emo convencional para destacar o caráter exploratório e a capacidade do grupo em testar criativamente os próprios limites. Inaugurado em meio a fragmentos de pianos, batidas e guitarras melódicas, o disco diz a que veio logo nos momentos iniciais, em Língua dos Cachorros. São pouco mais de dois minutos em que o grupo original de Santa Bárbara D’Oeste, no interior de São Paulo, preserva a essência do registro anterior, porém se permite explorar novos caminhos em estúdio, proposta que vai da colisão de estilos ao criativo diálogo com o pop. Leia o texto completo.
Cidadão Instigado
Cidadão Instigado (2026, Risco / Noblu Records)
Muito embora a imagem da Cidadão Instigado tenha se popularizado como banda, foi de maneira solitária que Fernando Catatau inaugurou o projeto em meados dos anos 1990. Agora, três décadas após o início das atividades, o cantor, compositor e produtor cearense retorna ao formato original com um trabalho que é, ao mesmo tempo, uma de suas obras mais solitárias e colaborativas, reforçando a imprevisibilidade do artista. Autointitulado, o sucessor de Fortaleza (2015) traz de volta o que há de mais característico no trabalho de Catatau: o aspecto exploratório. Em um intervalo de 50 minutos, o artista cearense vai do rock psicodélico à produção eletrônica de maneira sempre curiosa, jogando com as possibilidades a cada novo movimento. A diferença está na abordagem minimalista, com o músico se articulando em torno de uma Roland MV-8800. Leia o texto completo.
Cidade Dormitório
Cinema Bélico? (2026, Matraca Records / YB Music)
Na era da sociedade do espetáculo e da hiperconectividade, os integrantes do quarteto sergipano Cidade Dormitório questionam a força do audiovisual em Cinema Bélico?. Do momento em que tem início, em Barco Amnésia, até alcançar a derradeira Do Compositor, cada fragmento do trabalho ganha forma em meio a cenas de decadência urbana, tormentos existenciais e conflitos morais. “Transtornar, consumir, corroer”, canta o vocalista Yves Deluc em Já Era, Mano, música que sintetiza a força poética e visual que rege o trabalho. São versos sempre descritivos, por vezes cinematográficos, que vão de situações de violência urbana ao vazio cultural estimulado pelas redes sociais. “Com juros, sem seguro / E cripto, cripto, cripto, cripto, cripto, cripto, criptoarte / Pra você se distrair”, pontua o compositor sergipano. Leia o texto completo.
Clau Aniz
Mácula (2026, Mercúrio Música)
“Meu tempo é o das montanhas / Ligeirezas não me alcançam”, confessa Clau Aniz em E Olhar De Longe As Brasas Que Dançam na Superfície. Escolhida para inaugurar uma nova fase na carreira da artista cearense, a canção sintetiza tudo aquilo que a cantora, compositora e produtora de Fortaleza desenvolve ao longo de Mácula, trabalho em que joga com regras próprias e, aos poucos, as desconstrói. Sequência ao material entregue em Filha de Mil Mulheres (2018), o registro produzido em colaboração com Yuri Costa brinca com a fragmentação dos elementos. Enquanto no álbum anterior Aniz parecia percorrer um caminho sinuoso, lento e bastante solitário, aqui ela segue o oposto disso. O percurso ainda é incerto e o avanço se dá em uma medida particular de tempo, mas a força do trabalho reside na potência do coletivo. Leia o texto completo.
Crise
Por favor, me perdoe. As más notícias finalmente chegaram (2026, Lastro Musical)
Um bom registro de estreia não é aquele que apenas apresenta seus criadores, mas aponta caminhos. E é exatamente isso que encontramos em Por favor, me perdoe. As más notícias finalmente chegaram. Primeiro álbum de estúdio do grupo sorocabano Crise, o disco de oito faixas não apenas escancara as potencialidades do quinteto em estúdio, como abre passagem para o que ainda está por vir. Com Robofoot como faixa de abertura, o grupo formado por Cristine Siqueira, Gabriel Pasin, Raphael Resta, Caio Lobo e Enzo Mori apresenta parte dos elementos que serão explorados ao longo da obra. São canções ancoradas em relacionamentos fracassados, momentos de maior vulnerabilidade e crises típicas de jovens adultos, conceito reforçado na ciclicidade sufocante que invade Insisto/Desisto, vinda logo em sequência. Leia o texto completo.
DJ Ramon Sucesso
Sexta dos Crias 2.0 (2026, Lugar Alto)
Com a boa repercussão em torno de Sexta dos Crias (2023), DJ Ramon Sucesso se transformou em um dos nomes mais requisitados do funk carioca, acumulou passagens por diferentes festivais europeus e atraiu as atenções da crítica especializada. Dois anos após a entrega do registro que o revelou ao mundo, o produtor retorna com a apresentação de um trabalho ainda mais desafiador, Sexta dos Crias 2.0. Assim como o registro que o antecede, o novo disco se sustenta em cima de duas composições, ambas com mais de 16 minutos de duração, que destacam a habilidade do carioca em brincar com a fragmentação de elementos tradicionais do funk. São retalhos instrumentais, rítmicos e vocais que mudam de direção a todo momento, tensionando a experiência do ouvinte e ampliando os horizontes de possibilidades do gênero. Leia o texto completo.
Exclusive Os Cabides
Feliz e Triste ao Mesmo Tempo (2026, Independente).
É sempre impressionante a capacidade da Exclusive Os Cabides em transformar experiências simples do cotidiano em matéria-prima para composições que alternam entre o existencialismo profundo e o simples descompromisso. Uma crise de rinite, o tédio dos dias ou um passeio aleatório pela praia, tudo se converte em canção nas mãos do grupo catarinense, conceito reforçado em Feliz e Triste ao Mesmo Tempo (2026). Nascido da energia acumulada pela banda durante a turnê de divulgação de Coisas Estranhas (2024), além da vontade de investir em músicas voltadas ao rock que façam o público dançar, o disco diz a que veio logo na introdutória Bicicleta. Da urgência das guitarras à letra surrealista que transforma um objeto comum no elemento central da canção, uma das marcas do grupo, tudo parece trabalhado para hipnotizar o ouvinte. Leia o texto completo.
Feeble Little Horse
Bitknot (2026, Saddle Creek)
Com a saída do membro fundador Ryan Walchonski e o cancelamento de uma série de apresentações ao vivo dias após o lançamento de Girl With Fish (2023), o futuro do Feeble Little Horse parecia incerto. Foi somente com a chegada de This Is Real, em março do último ano, que o grupo formado por Lydia Slocum, Sebastian Kinsle e Jake Kelley conseguiu se restabelecer, indicando o início de uma nova fase do projeto. Agora, quase três anos após o lançamento do último trabalho de estúdio, o trio de Pittsburgh, Pensilvânia, não apenas retorna com um novo disco de inéditas, Bitknot, como reassume o posto de uma das bandas mais barulhentas da cena norte-americana. Do momento em que tem início, na faixa Doorway, camadas de guitarras e texturas sujas destacam a capacidade do grupo em manipular o ruído. Leia o texto completo.
Fossilization
Advent of Wounds (2026, Everlasting Spew)
O corpo monstruoso e decomposto que ilustra a imagem de capa de Advent of Wounds, novo álbum do Fossilization, diz muito sobre a atmosfera que marca o segundo registro do projeto paulistano. Sequência ao material entregue em Leprous Daylight (2023), o trabalho de sete faixas consegue ser ainda mais intenso, opressivo e violento do que o disco anterior, levando a banda para outras direções. Parte desse processo vem da própria mudança de dinâmica da banda em estúdio. Com a saída do baterista Paulo Pinheiro, o vocalista, guitarrista e produtor Thiago Oliveira, o V, decidiu testar novas abordagens em estúdio, mergulhando em um repertório tão brutal quanto melancólico. O resultado desse intenso processo está na entrega de um material que escancara a potência e a completa crueza que orienta o Fossilization. Leia o texto completo.
Friko
Something Worth Waiting For (2026, ATO)
Com Where We’ve Been, Where We Go From Here (2024), os membros da Friko não apenas confessaram suas referências, como consolidaram a própria identidade criativa. Agora, dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, o grupo de Evanston, Illinois, retorna com Something Worth Waiting For, trabalho que segue de onde a banda parou com o registro anterior sem necessariamente se repetir. Marcado pelas composições catárticas que destacam a abordagem quase performática do vocalista Niko Kapetan, o registro de nove faixas concentra o que há de melhor na obra do grupo norte-americano. São canções que apontam para o indie rock dos anos 1990 e 2000, confessam os sentimentos mais profundos do artista e ainda projetam os instrumentos com a intensidade característica de uma apresentação ao vivo. Leia o texto completo.
Gorillaz
The Mountain (2026, Kong)
Enquanto se preparavam para dar vida ao nono trabalho de estúdio do Gorillaz, Damon Albarn e o artista visual Jamie Hewlett foram surpreendidos com o falecimento de seus pais. O processo levou os dois a viajar até a Índia, onde espalharam cinzas pelo rio Ganges e mergulharam em um processo de reflexão sobre a morte, temática que embala a experiência da dupla e do próprio ouvinte em The Mountain. Com a montanha como uma metáfora para a jornada ao longo da vida, Albarn se aprofunda em uma série de composições que tratam sobre morte, luto e renascimento com uma sensibilidade poucas vezes antes percebida nas canções do Gorillaz. “Sabe o que é mais difícil? / É dizer adeus a alguém que você ama”, canta o artista em The Hardest Thing, faixa que sintetiza parte dessa vulnerabilidade que orienta a obra. Leia o texto completo.
Grace Ives
Girlfriend (2026, True Panther / Capitol)
Uma vez que você se habitua ao curioso universo criativo de Grace Ives, difícil querer sair dele. Dona de uma interpretação bastante particular sobre o pop, a cantora e compositora norte-americana retorna após quatro anos com mais um novo trabalho de estúdio, Girlfriend (2026). Sequência ao material apresentado em Janky Star (2022), o registro não apenas preserva, como potencializa a essência do trabalho anterior. Assim como o registro que o antecede, além, claro, do introdutório 2nd (2019), Girlfriend se sustenta na montagem de composições que partem do pop tradicional para incorporar uma abordagem cada vez mais reducionista. É como se a cantora preservasse apenas os elementos centrais dentro de cada faixa, voltando seus esforços para ganchos certeiros e bases melódicas que rapidamente capturam a atenção do ouvinte. Leia o texto completo.
Hemlocke Springs
The Apple Tree Under The Sea (2026, Awal)
A colorida ilustração que estampa a imagem de capa de The Apple Tree Under The Sea, disco de estreia de Hemlocke Springs, diz muito sobre aquilo que Naomi Udu busca desenvolver no decorrer do material. São faixas cintilantes que passeiam pelo pop dos anos 1980, 1990 e 2000 sem jamais corromper a identidade artística da musicista que, mesmo acessível e radiante, se aprofunda em temáticas espinhosas. Filha de imigrantes nigerianos, Udu perverte o pop tradicional ao mergulhar em questões complexas que vão de dilemas morais a temas religiosos e existenciais. Exemplo disso fica bastante evidente na pegajosa W-W-W-W-W, canção em que aborda uma narrativa sombria sobre casamento forçado, porém, preservando o forte aspecto radiofônico, conceito que embala a experiência do ouvinte até os minutos finais do trabalho. Leia o texto completo.
Isma
Made In Cohab (2026, Independente)
Se for pra sair de um projeto tão icônico como o Irmãs de Pau e se lançar em carreira solo, que seja como a Isma em Made In Cohab. Primeiro álbum da artista de Itapevi longe de Vita Pereira, o registro não apenas dá continuidade ao que a cantora paulista vinha experimentando no último ano, como ainda amplia consideravelmente os horizontes sonoros, temáticos e até os colaboradores dentro de estúdio. Concebido enquanto a dupla se despedia do público em cima dos palcos, o trabalho concentra o que há de melhor no repertório da cantora: letras altamente explícitas, sedentas por sexo e sempre bem-humoradas. São faixas como Socialismo da Putaria, com produção de Christopher Luz, que preservam a linguagem pop de Isma e o criativo diálogo com o funk paulista, porém sempre pontuadas por questões políticas e sociais. Leia o texto completo.
Ítallo
Catatau (2026, Esfera / Loco Records)
Quarto e mais recente álbum de estúdio de Ítallo França, Catatau é uma obra que trata sobre atravessar a cidade e ser atravessado por ela. Livre da atmosfera contemplativa que marca o repertório do registro anterior, Tarde no Walkiria (2023), França, em conjunto com o coprodutor e músico Paulo Novaes, se articula na entrega de um trabalho marcado pelo aspecto exploratório e pela inquietação. A voz que antes entoava canções de amor e versos marcados pela fragilidade emocional, agora se aventura em meio a paisagens urbanas e experiências consumidas pelo caos diário. Exemplo disso fica evidente em Pelé Dotô, samba inspirado em um vendedor de picolé da infância do artista. Entre versos descritivos que evocam Chico Buarque e Rodrigo Campos, Ítallo oferece ao público uma composição marcada pelo ritmo e os contrastes sociais que reforçam o caráter político do repertório montado pelo músico ao longo do disco. Leia o texto completo.
Juçara Marçal & Thais Nicodemo
Dessemelhantes (2026, YB Music)
Parceira de longa data de Kiko Dinucci, com quem deu vida aos essenciais Padê (2008), Encarnado (2014) e Delta Estácio Blues (2021), Juçara Marçal parece ter encontrado em Thais Nicodemo uma colaboradora à altura. Juntas em Dessemelhantes, as duas musicistas se aventuram na construção de um material que fragmenta o piano tradicional e transforma a voz em uma importante ferramenta de trabalho. Nascido de um encontro inicial entre as duas artistas em cima do palco, há oito anos, Dessemelhantes é um registro que equilibra tensão e momentos de inesperada suavidade de maneira única. Enquanto Nicodemo assume o piano preparado, espalhando pedaços de papéis, latinhas, pregadores e até placas de metal pelas cordas do instrumento, o vocal de Marçal avança sobre o ouvinte em uma interpretação quase opressiva. Leia o texto completo.
Juliana Linhares
Até Cansar o Cansaço (2026, Independente)
Se em Nordeste ficção (2021) a música de Juliana Linhares era geográfica, em Até cansar o cansaço (2026) ela reflete o corpo. Nascido de um processo de esgotamento e transformação pessoal vivido pela cantora e compositora potiguar, o trabalho parte desse desgaste físico, emocional e mental para pensar em soluções possíveis para um futuro próximo em que sonhar coletivamente seja permitido para além da hiperconexão. “Vamos dançar / Até cansar o cansaço / Até que vire do avesso / Até um novo começo”, canta Linhares logo nos minutos iniciais, na música-título do trabalho. Espécie de canção-manifesto, a faixa não apenas aponta a direção temática seguida pela artista ao longo do material, como escancara a potência das vozes e a fina tapeçaria instrumental tecida por um time de músicos regidos pela produção caprichada de Elisio Freitas. Leia o texto completo.
Kaatayra
Caminhos de Água (2026, Independente)
A mudança de direção iniciada em Inpariquipê (2021) ganha novo desdobramento em Caminhos de Água. Primeiro álbum de inéditas de Caio Lemos com o Kaatayra em cinco anos, o registro deixa de lado a atmosfera soturna de obras como Toda História pela Frente (2020) para destacar o caráter exploratório e o interesse do instrumentista brasilense pela música de vanguarda e pelos ritmos regionais. Com a água como elemento central, o trabalho se inicia com uma pergunta lançada por Dona Maria, avó de Lemos: “De onde vem o Rio Preto?”. A partir desse processo investigatório, o músico se aventura em meio a corredeiras sonoras, momentos de intensa experimentação e versos sempre consumidos por inquietações existenciais. É como um campo aberto às possibilidades, conceito que move a produção do instrumentista. Leia o texto completo.
Lello Bezerra
Matéria e Memória (2026, Babel)
Matéria e Memória é um trabalho esquisitíssimo e, por isso mesmo, fascinante. Utilizando a fragmentação da guitarra e o curioso diálogo com a produção eletrônica, o cantor, compositor, produtor e guitarrista pernambucano Lello Bezerra se aventura na elaboração de um curioso repertório que combina modernidade e ancestralidade enquanto tensiona a experiência do ouvinte de maneira nada convencional. Sequência ao material apresentado em Desde Até Então (2019), o álbum gestado ao longo dos últimos anos destaca o caráter exploratório do artista. Longe do futurismo eletrônico e dos temas jazzísticos que marcam o repertório do disco anterior, o guitarrista investe em um registro cada vez mais regionalista. Canções que vão do brega ao cavalo-marinho sem necessariamente limitar as ambientações sintéticas do instrumentista. Leia o texto completo.
Luiz Barata
Eterno Menino Levado (2026, Torcicolo)
É impressionante o poder de síntese de Luiz Barata em Eterno Menino Levado. Sequência ao material entregue no ainda recente Pragas Urbanas (2025), o trabalho de oito faixas e quase 18 minutos de duração destaca a capacidade do rapper carioca em mergulhar nas próprias inquietações, desenvolver narrativas urbanas e confessar sentimentos de maneira complexa mesmo em um curto intervalo de tempo. São canções que preservam apenas o que há de essencial dentro do objeto temático explorado pelo artista. Frações poéticas que tratam de questões complicadas, como acesso, repressão e conflitos típicos de jovens adultos, porém, partindo de um quase olhar inocente. É como se Barata preservasse a essência da infância. Crescer sem nunca abandonar o lúdico, fazendo da pirraça um ato de resistência à vida adulta pragmática. Leia o texto completo.
Mandy, Indiana
Urgh (2026, Sacred Bones Records)
A expressão gutural que dá nome ao segundo álbum de estúdio do grupo anglo-francês Mandy, Indiana e a sobreposição crua que ilustra a imagem de capa do disco alertam: esse é um trabalho desconfortável, físico e visceral. Nascido de um doloroso processo vivido entre os membros da banda ao longo dos últimos anos, com passagens por salas de cirurgia e diferentes emergências médicas, o trabalho estabelece nessa tensão permanente o estímulo para a formação de um repertório que avança sobre o ouvinte de maneira invasiva. A própria escolha do grupo em inaugurar o disco com Sevastopol torna isso bastante evidente. Do uso sujo dos sintetizadores à distorção das vozes e batidas, tudo se projeta de forma opressiva. É como uma versão ainda mais sufocante de tudo que o grupo havia testado em I’ve Seen a Way (2023), conceito reforçado em Magazine, faixa que trata sobre uma experiência de estupro vivenciada pela vocalista Valentine Caulfield. Leia o texto completo.
Melly
Mais Forte Que a Dúvida (2026, Slap)
Em Mais Forte Que a Dúvida, segundo e mais recente álbum de Melly, todo e qualquer traço de incerteza cai por terra. Sequência ao material apresentado em Amaríssima (2024), o registro deixa de lado o reducionismo e a fragilidade lírica que marcam o repertório do disco anterior para destacar a força dos versos e a pluralidade de estilos que elevam de maneira explícita a obra da cantora e compositora baiana. Atravessado por conceitos da filosofia Ubuntu, que combina elementos de religiosidade, individualidade e a interdependência entre humanos e a natureza, Mais Forte Que a Dúvida é um álbum de decisões firmes. Do uso destacado das vozes, levando o trabalho de Melly para outras direções, passando pela construção das batidas, perceba como a artista baiana avança sobre o ouvinte sem qualquer chance de escapatória. Leia o texto completo.
Mombojó
Solar (2026, Independente)
Orientado pelo espírito pós-pandêmico de botar a cara no sol, sair de casa e criar conexões, Solar marca o retorno entusiasmado da Mombojó. Primeiro disco de inéditas da banda em seis anos, o sucessor de Deságua (2020) é, ao mesmo tempo, um fino exercício de reapresentação do quinteto pernambucano que contabiliza mais de duas décadas de carreira e o princípio de uma nova fase artística. Como indicado logo na introdutória Quero Amanhecer, o grupo formado por Felipe S., Chiquinho, Marcelo Machado, Missionário José e Vicente Machado faz o que sabe de melhor. São composições marcadas pela colorida combinação de estilos, inesperadas mudanças de ritmos e versos que alternam entre o cotidiano, o existencial e o emocional de forma sempre acessível, reforçando a relação da banda com a música pop. Leia o texto completo.
My New Band Believe
My New Band Believe (2026, Rough Trade)
Com o fim das atividades do Black Midi, Cameron Picton decidiu investir em um novo projeto marcado por membros mutáveis, sonoridade menos abrasiva e narrativas cada vez mais complexas. O resultado desse processo está na entrega de My New Band Believe, trabalho que amplia os horizontes de possibilidades do músico e ainda destaca o forte aspecto intimista que orienta as criações do britânico. Marcado pelo acabamento acústico, o registro de oito faixas estabelece logo na introdutória Target Practice parte dos elementos que serão incorporados no decorrer do trabalho. São diálogos com a música barroca e versos semi-declamados que se aprofundam em narrativas surrealistas, como se o artista entregasse as peças de um imenso quebra-cabeças sensorial que se completa apenas nas mentes dos próprios ouvintes. Leia o texto completo.
Neurosis
An Undying Love for a Burning World (2026, Neurot)
Muito além de um celebrado retorno, An Undying Love for a Burning World é um recomeço. Primeiro trabalho de inéditas do Neurosis desde a expulsão do vocalista e membro fundador Scott Kelly – denunciado após uma série de abusos contra a própria esposa e filhos –, o sucessor do álbum Fires Within Fires (2016) reapresenta o projeto e mostra uma banda tão entusiasmada quanto em seus melhores anos. Hoje formado por Dave Edwardson, Jason Roeder, Steve Von Till, Noah Landis e Aaron Turner, membro do Isis e Sumac que assume a posição deixada por Kelly, o grupo traz de volta o que há de mais característico na identidade do Neurosis. São canções que combinam diferentes gêneros, como o sludge, o rock industrial e a produção psicodélica, sempre alternando entre criações expansivas e faixas essencialmente dinâmicas. Leia o texto completo.
OGermano
Virada de Chave (2026, Ogef)
“No fim, tudo é sobre cultura negra, tudo veio do mesmo lugar”. A frase disparada por OGermano em um dos interlúdios de Virada de Chave (2026), segundo e mais recente trabalho de estúdio do rapper carioca, ajuda a entender aquilo que o artista busca desenvolver ao longo do material. São canções que transitam por diferentes estilos, criando uma ponte estratégica entre o samba e o rap nova-iorquino de forma autoral. Sequência ao material entregue em As Crônicas De Um Neguin (2024), além, claro, do colaborativo Caça & Recompensa (2025), disco assinado em parceria com o rapper baiano Matchola, Virada de Chave organiza melhor as ideias do artista carioca sem deixar de arriscar. Da fina tapeçaria instrumental à construção dos versos, OGermano faz com que um universo criativo bastante particular pareça sempre aberto ao público. Leia o texto completo.
Olivia Rodrigo
You Seem Pretty Sad For a Girl So In Love (2026, Geffen)
Se em Sour (2021) e Guts (2023) Olivia Rodrigo parecia testar suas possibilidades, em You Seem Pretty Sad For a Girl So In Love, a artista norte-americana sabe exatamente onde quer chegar. Partindo de uma narrativa dividida em dois atos, o trabalho explora a descoberta de um amor intenso e idealizado para, em seguida, mergulhar na gradual deterioração e término que destacam a força poética da cantora. Mais uma vez acompanhada pelo produtor Dan Nigro (Chappell Roan, Lorde), com quem tem colaborado em estúdio desde o começo da carreira, Rodrigo usa do trabalho para ampliar os próprios limites criativos. A nostálgica relação com o pop rock dos anos 1990 e 2000, marca dos registros anteriores, agora fica em segundo plano, com a californiana e o parceiro de produção mergulhando na estética da década de 1980. Leia o texto completo.
Ottopapi
Bala de Banana (2026, Seloki Records)
Bala de Banana é um disco perigosíssimo, afinal, corre o risco de você negligenciar todas as suas outras audições e se prender às dez canções altamente pegajosas do registro. Estreia de Otto Dardenne, o Ottopapi, o trabalho produzido em colaboração com Chuck Hipolitho (Forgotten Boys, Vespas Mandarinas), revela a habilidade do músico paulistano em seduzir e hipnotizar o ouvinte com muito pouco. Claramente influenciado pela atmosfera urbana e a urgência do rock produzido no início dos anos 2000, o registro encanta justamente por escancarar todas as suas referências e fazer disso o combustível para um trabalho que captura a atenção do ouvinte logo em uma primeira audição. São ecos de artistas como The Strokes e todo um catálogo sonoro que parece baixado do MySpace ou resgatado de um antigo MP3 Foston. Leia o texto completo.
Pupillo
Pupillo (2026, Amor In Sound)
De veteranos da música brasileira, como Gal Costa e Erasmo Carlos, a nomes em ascensão, caso de Edgar e Assucena, sobram artistas que encontraram na produção de Pupillo um importante alicerce. E não poderia ser diferente. Em atuação desde a década de 1990, quando integrou o grupo Nação Zumbi, o percussionista acumula experiência, uma extensa lista de registros em estúdio e um invejável time de parceiros criativos. Satisfatório perceber no primeiro disco do artista em carreira solo uma combinação natural de todos esses elementos. Coproduzido em parceria com Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Jack Johnson),o álbum destaca a capacidade de Pupillo em revelar diferentes paisagens instrumentais e percorrer os mais variados campos da música brasileira e internacional sem necessariamente fazer disso o estímulo para uma obra confusa. Leia o texto completo.
QuedaLivre
Seres Urbanos (2026, AlterEgo)
Equilibrar momentos de profunda tensão com instantes de maior fragilidade emocional talvez seja uma das principais marcas do QuedaLivre em Seres Urbanos. Estreia do trio carioca formado por Lore (voz e guitarra), Victor Basto (voz, guitarra e produção) e João Mendonça (bateria e produção), o disco de nove faixas universaliza conflitos particulares enquanto escancara a versatilidade do grupo em estúdio. Com Lado Animal como música de abertura, o trio apresenta parte dos elementos que serão incorporados ao longo da obra. Enquanto os versos destacam a sensibilidade poética do registro (“Invento desculpas pra fazer o que quero / O tato é mistério que provoca sem dó”), camadas de guitarras, ruídos e batidas sempre destacadas encolhem e crescem a todo momento, reforçando as dinâmicas e o domínio criativo do grupo. Leia o texto completo.
Ratboys
Singin’ To An Empty Chair (2026, New West)
Se em The Window (2023) os integrantes do Ratboys pareciam ter conquistado um importante ponto de maturação criativa, em Singin’ To An Empty Chair, a banda formada por Julia Steiner, David Sagan, Marcus Nuccio e Sean Neumann potencializa suas virtudes. Com a comunicação falha como elemento central, o grupo de Chicago se aprofunda na entrega de faixas marcadas pelo aspecto emocional. “Para onde vai toda a dor / Quando nada existe?”, questiona Steiner em The World, So Madly, composição que sintetiza a forte carga emocional, sensação de deslocamento e angústias que orientam o trabalho da banda durante toda a execução do material. São versos sempre confessionais, como um doloroso exercício de exposição emocional que amplia tudo aquilo que o grupo tem testado desde a estreia com AOID (2015). Leia o texto completo.
Robyn
Sexistential (2026, Konichiwa / Young)
Robyn já foi muitas e, ao mesmo tempo, uma só. Da estrela pop em ascensão no introdutório Robyn Is Here (1995) à artista em busca de libertação no homônimo álbum de 2005, da garota com o coração partido em Body Talk (2010) à mulher que encara o luto com sobriedade em Honey (2018), cada novo trabalho revela a habilidade da cantora e compositora sueca em transformar as próprias vulnerabilidades em música pop. Em Sexistential, primeiro disco de inéditas da artista em oito anos, não poderia ser diferente. Inspirado pelo processo de gravidez tardia e a redescoberta do próprio corpo depois dos 40, o registro de nove canções transborda desejo, prazer feminino e, principalmente, bom humor da cantora. A própria faixa-título do trabalho, com Robyn relatando suas experiências em uma clínica de fertilização e o tesão pelo ator norte-americano Adam Driver, funciona como uma síntese criativa do restante do material. Leia o texto completo.
Ryan Fidelis
Tons de Marrom (2026, Cuervo Musica)
Por mais previsível que seja a narrativa romântica construída por Ryan Fidelis em Tons De Marrom, difícil não ceder aos encantos do artista. Sequência ao material entregue no ainda recente Alma (2025), o álbum não apenas escancara a evolução criativa do cantor e compositor catarinense, como destaca a sensibilidade poética, a vulnerabilidade e a entrega de Fidelis durante toda a execução do disco. Conceitualmente dividido em três atos, Tons de Marrom reserva aos minutos iniciais do disco o lado mais apaixonado de Fidelis. São faixas que celebram o amor preto, referenciam diretamente nomes como Jorge Ben Jor, Cassiano e MC Kekel, além de encontrar no suporte de convidados como Maui, JOK3R e Nina um complemento natural aos versos que transbordam sentimentos e revelam as cenas iniciais de uma relação. Leia o texto completo.
Seu Jorge
The Other Side (2026, Amor in Sound / Black Service)
No fim dos anos 2000, quando ainda colhia os frutos do bem-sucedido América Brasil (2007), trabalho que revelou sucessos como Burguesinha e Mina do Condomínio, Seu Jorge decidiu investir em uma abordagem diferente. Longe da euforia do samba-rock que vinha testando desde os tempos na banda Farofa Carioca, o músico, em parceria com o produtor Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Marcelo D2), começou a desacelerar. O que o artista não poderia prever é que essa ausência de pressa faria com que o disco levasse anos até ser revelado ao público. Além da produção compassada, que contou com arranjos assinados por Miguel Atwood-Ferguson, o trabalho, previsto para o fim da década passada, teve seu lançamento postergado por conta do avanço da pandemia de Covid-19. O músico ainda engatou em outro projeto, o ainda recente Baile à la Baiana (2025), entregando The Other Side somente agora, mais de 15 anos após o início das gravações. Leia o texto completo.
Sideshow
Tigray Funk (2026, 10K)
Nascido na região de Tigré, na Etiópia, e criado na Costa Leste dos Estados Unidos, HaileMariam Kassa, o Sideshow, fez justamente dessa experiência global o estímulo para a própria obra. Depois de uma série de trabalhos que se aprofundam em temas como pobreza, conflitos armados, violência e repressão, o artista que hoje reside em Los Angeles retorna com um de seus discos mais ambiciosos, Tigray Funk. Com 32 canções, todas bastante curtas, o trabalho destaca a capacidade do artista em elaborar narrativas complexas em um curto intervalo de tempo. São canções que vão da guerra entre Israel e Palestina, tratam sobre o consumo excessivo de drogas e mergulham em conflitos pessoais sem necessariamente fazer disso o estímulo para um álbum desequilibrado. É como se Sideshow tivesse pleno domínio da própria criação. Leia o texto completo.
Slayyyter
Worst Girl In America (2026, Records / Columbia)
Worst Girl In America é uma obra de excessos. Terceiro e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana Slayyyter, o registro não apenas preserva a essência eufórica dos antigos trabalhos da norte-americana, como vai além. São composições que seguem de onde a artista parou em Starfucker (2023) e incorporam novas referências de forma ainda mais intensa e caótica. Com Dancec omo música de abertura do disco, Slayyyter revela parte dos elementos que serão explorados ao longo da obra. Enquanto os versos detalham o sentimento de libertação após um relacionamento tóxico, batidas destacadas e sintetizadores ascendentes trazem de volta a mesma atmosfera eufórica que marca os primeiros trabalhos de artistas como Justice e SebastiAn. É como um insano cruzamento de informações. Leia o texto completo.
Tangolo Mangos
Pedagios Y Caronas (2026, DeckDisc)
Algumas coisas são como devem ser. Depois de um período de necessária experimentação em que gravou um disco com Sophia Chablau e colaborou com nomes como Pelados, o músico Felipe Vaqueiro retorna aos parceiros de banda na Tangolo Mangos para dar vida ao urgente Pedagios Y Caronas. Nascido das experiências do grupo em cima dos palcos e das vivências na estrada, o trabalho escancara a potência do quinteto baiano que se completa com Bruno Fechine, João Antônio Dourado, João Denovaro e Theo Kiono. Exemplo disso fica bastante evidente na nova versão para Ohayo Saravá. Originalmente gravada ao lado de Chablau, a música reaparece em uma abordagem explosiva. Entre versos bilíngues que evocam as criações de conterrâneos como Caetano Veloso e Gilberto Gil nos anos 1970, camadas de guitarras, sopros, metais e batidas aceleradas atingem o ouvinte em todas as direções, sem qualquer chance possível de escapatória. Leia o texto completo.
Underscores
U (2026, Mom + Pop)
Após um período bastante movimentado em que colaborou com Danny Brown, Oklou e Yaeji, April Harper Grey, a Underscores, retorna com sua maior criação, U. E ela não perde tempo. Com Tell Me (U Want It) como composição de abertura, a artista norte-americana apresenta parte dos elementos que serão incorporados ao longo do álbum, como o estilo de produção que atravessa o pop dos anos 2000 para dialogar criativamente com o presente cenário. Um rico catálogo de ritmos, sentimentos, melodias e vozes. Apontada a direção, Music, vinda logo em sequência, potencializa esse resultado. Enquanto os versos usam da relação com a música para tratar sobre a sensação de conexão intensa com uma pessoa, batidas tortas e pequenas variações estruturais vão de nomes como Skrillex a 100 gecs sem perder a identidade da artista. Tudo é tão grandioso que a posterior Hollywood Forever, com sua abordagem econômica, acaba engolida. Leia o texto completo.
Wendy Eisenberg
Wendy Eisenberg (2025, Joyful Noise)
A escolha de Wendy Eisenberg em batizar o mais recente trabalho de estúdio com o próprio nome não se dá por acaso. Após uma década de registros marcados pelo forte caráter exploratório, a musicista faz do presente álbum sua criação mais equilibrada. Os improvisos e momentos de maior experimentação ainda estão presentes, porém, partindo de uma abordagem criativa ainda mais sensível, acolhedora e intimista. Diferente do material entregue no disco anterior, Viewfinder (2024), com suas canções que se espalhavam por mais de vinte minutos de duração, Eisenberg se articula na elaboração de um repertório conciso. Em geral, são canções que partem de uma estrutura típica do cancioneiro norte-americano, abrem passagem para os arranjos de cordas de Mari Rubio e, eventualmente, autorizam os experimentos sutis da violonista. Leia o texto completo.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.
Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.